Fronteiriça – Roseane Santos

La Loba é a personagem que dá nome ao primeiro conto do livro “Mulheres que Correm com os Lobos”, de Clarissa Pinkola Estés. Ela, La Loba, que também é conhecida como A Mulher dos Ossos, a Trapeira ou ainda a Mulher Lobo, tem um único trabalho: caminhar em busca de ossos que são recolhidos e guardados em sua caverna. Quando, depois de algum tempo – desses que não tem medida em dias, meses ou anos – a cata rende a junção de um esqueleto inteiro, La Loba senta-se perto do fogo, e sabe o que ela faz? Ela canta. 

Quando ouvi pela primeira vez Roseane Santos, a Rose como a chamamos aqui em Curitiba, contando sobre os registros que fez ao longo dos anos em cadernos, que permaneceram fechados, até o momento em que ela sentiu-se pronta para abri-los e mostrar seus escritos a outras pessoas, imediatamente pensei em La Loba. Na ocasião, Rose ocupava o centro de um grande palco rodeado por uma arena em uma tarde de calor insuportável e acentuado pela lona que cobria o evento. Eu à direita, saída de um show desgostoso, desses em que o click encobre o retorno, alguém esquece a letra, a nota escapa pela tangente e a plateia parece absolutamente distante, observava a Rose ali, no centro do palco, com toda sua grandeza. Dava para sentir no ar, que algo significativo pulsaria e levaria à música independente, um brio acentuado. Ao seu lado, Luciano Faccini, um dos produtores do seu futuro álbum, e um dos responsáveis por ler nos cadernos abertos de Rose, a poesia que se transformaria em música, no seu primeiro álbum solo em 18 anos de carreira: Fronteiriça. 

Foi então que depois de um pequeno discurso de agradecimento, Rose cantou à capela um trecho de uma música, e disse que a composição se abriu do seu caderno, antes fechado, quando ela percebeu que não precisava mais carregar algumas dores do seu passado. Ela estava pronta para ser uma mulher do tempo de agora. Mesmo sem ter certeza de qual foi a canção cantada ali, ainda sinto nas entranhas dos meus próprios ossos, aquela melodia dançando perto do fogo, como uma ideia subjacente, um vir a ser já reverberado em sua potência. Era o final do ano de 2018.

Agora, quem tem a boa sorte de ouvir o álbum Fronteiriça, e cartografar a multiplicidade de territórios que ele propõe em 11 faixas, pode retirar das prateleiras longitudinais do tempo, um atlas sensível da música que Roseane Santos, gentil, corajosa e coletivamente, traçou. 

A voz é única, a interpretação é única. Algum humor poético também preenche a estrada, e as muitas delicadezas são paisagens corriqueiras, distribuídas na geografia Fronteiriça. As composições reúnem escritos da artista e parcerias com pessoas próximas como Luciano Faccini, Leonarda Glück, Ary Giordani, Francisco Mallmann, Bia Figueiredo e Ana Modesto. A produção musical foi feita em parceria com Leonardo Gumiero e Luciano Faccini. A arte é de Thalita Sejanes sobre fotografia de Pretícia Jerônimo e a produção executiva é de Moira Albuquerque. O trabalho conta ainda com André Garcia no violão, guitarra e arranjos-base, Gabriela Bruel na percussão, Daniel D’Alessandro na bateria, Victoria Vilandez no contrabaixo e Luciano Faccini no clarinete, violão, efeitos, ambientações, direção artística, junto com a própria Rose.

Entre a esperança de um acaso impossível por hora, da faixa “Pedras e Escritos”, um mecanismo imaginário de respiração metafórica no sufoco dos dias atuais em “Guelras”, personagens mágicos ou místicos como a sereia, ou mulher bruxa na “Valsa da Lua”, pequenas crônicas como “Pastel na Praça” ou “Lábia” aproximam a artista e suas parcerias, da vida normal, rotineira, cotidiana. Quem segue o percurso pela estrada de Fronteiriça, alcança o primeiro platô: a “Pequena Ladainha de Cura”. Toma mais um fôlego e desaba no colo forte e poroso de “Ancestralidade”, para um descanso. 

La Loba, à medida que canta para os ossos recolhidos de um esqueleto completo ao redor do fogo, vai reconstituindo a carne, as vísceras, a pele do animal. E, se ela canta mais um pouco, o sangue começa a correr, e ele começa a respirar. Com mais um entoo, a vida ressurge e é capaz de habitar mais uma vez esse ser, que ao correr em disparada por estradas e vales, vai se transformando novamente em uma pessoa. Nesse caso, uma mulher. A caverna é o útero, que é e sempre será o gerador da vida. Os ossos são as histórias boas e ruins, que deixamos na cartografia do nosso mapa pessoal, ao longo do tempo. La Loba é a consciência, que se recupera quando resgatamos a nós mesmos e elaboramos nossas histórias reconstruídas em versos que aí, cada um e cada uma, vai compor, repor, escrever, guardar ou cantar. E correr em disparada na direção de novas fronteiras. Como Roseane Santos fez, ao voltar para recolher seus ossos, juntar os melhores versos do caminho, reconstruir sua narrativa, reunir em sua caverna, ao redor do fogo aceso por suas próprias mãos, seus apoios pessoais e musicais, e assinar seu trabalho como compositora. Com o canto de Rose, Fronteiriça ganha vida. E vai correr pelo seu mundo até tornar-se o que for depois do vir a ser.

Fico pensando ainda, quantas cantoras guardam por aí, seus cadernos fechados e que tamanho tem a prateleira longitudinal da validação vinda de um observador de fora? Qual é o tamanho necessário para a subida dos próprios pés à ponta, suficientes para alcançar a melodia do dizer dos ossos catados na fronteira das histórias da vida? Nesta subida, esses pés podem encontrar ainda apoio? Podem ir até os olhos que leiam além? Podem pulsar em corações generosos que andam a cata de versos, com a força de cantar sobre eles, e assim torná-los à vida como semente e terra, renascidas sempre e mais uma vez?

Delírios Líricos – Tatá Aeroplano

Ao ouvir “Delírios Líricos”, feche os olhos. Coloque uma roupa brilhante, adereços exagerados, algo fora do comum. Dance com gestos que não faria em público. Celebre e chore em casa, ao acessar uma ponta de lembrança dos seus planos para o ano de 2020, agora em meio a esta solidão, ao isolamento. Perceba os arranjos, as guitarras contemporâneas, um tanto deslocadas, como todos nós. O novo disco de Tatá Aeroplano é um convite que chama para já, enquanto te leva para algum lugar do passado. Algo que já foi ouvido, que já foi dito na pronúncia de outras palavras, pois já convivemos com outras alucinações, de Mutantes a Belchior, de Jards Macalé a Novos Baianos, de Raul Seixas a Tim Maia. É um duvidoso déjà vu. Mas é um delírio atual.

Ainda de olhos fechados, imagine que o Brasil está sob um contexto social e político lastimável. Que a morte nos ronda, aleatoriamente. Que faltam articulação e liderança, confiança e decisões assertivas na política e na economia. Imagine também que os artistas, diante deste contorno absurdo e improvável, estão produzindo algo que dá conta deste cenário em estéticas variadas: melancólicas, tristes, eufóricas, otimistas, raivosas, pessimistas, sonhadoras e futuristas.

Você está em 2020, ou em 1967? Ouve Tatá Aeroplano – aqui como um representante da produção contemporânea brasileira – ou os tropicalistas, com suas guitarras desesperadas por redescobrir o Brasil e seus valores genuínos, por desenhar a dignidade de seu povo, que à época, vivia as consequências do Golpe de 64? O mesmo povo, que deslocado para hoje, vive às voltas com paradoxos delirantes, como discutir a possibilidade de morar em um planeta plano, de usar a cloroquina como panaceia em meio a uma pandemia, de assistir perplexo e paralisado, o genocídio dos povos originários, de receber o convite diário a um tipo de ilusão articulada com requintes de marketing perversos massivos e impiedosos, diante de uma população que parece não ter em si, ainda, a dimensão de sua potência. Ainda cabe um pouco de poesia?

Assuntos como política, religião, amor, cultura e muita poesia são distribuídos em cada uma das 9 faixas do álbum “Delírios Líricos”. Este é o sexto trabalho solo da carreira de Tatá Aeroplano, que contabiliza 18 anos de carreira e projetos muito originais no currículo, como o Cérebro Eletrônico. O novo álbum tem participações de Bárbara Eugênia, Biba Graeff e Malu Maria. A produção foi coletiva, em parceria com Dustan Gallas, Junior Boca, Bruno Buarque e Lenis Rino.

Entre as faixas estão criações novas e antigas. “Trinta Anos Essa Noite” foi escrita no início dos anos 2000, e as guitarras empoeiradas presentes na música evocam medos sinceros e momentos de autoconformismo – sentimentos que voltamos a descobrir ou aperfeiçoamos em tempos recentes.

“Ressureições”, originalmente de Jorge Mautner e Nelson Jacobina, ganha nova roupagem com Tatá, e dá frescor ao disco – fincado num devaneio recorrente. Já “Cabeças Cortadas” é um delírio lírico em que vozes se encontram para definir alguma coisa antes liquefeita. A linda “O Silêncio das Serpentes” fecha álbum com um toque cênico, quase extravagante, um grito calculado.

Agora, abra os olhos. Espero que você esteja dentro da sua casa, chegando ao fim dessa viagem musicada, em que a poesia de Tatá Aeroplano nos salva da sensação delirante de não sabermos mais onde está a realidade e qual é exatamente o tempo cronológico dos eventos diários no Brasil.

Vivemos um delírio – lírico – constante que precisa como nunca da arte à frente dos movimentos que agora fervem dentro de quatro paredes, e que irão surgir sem demora, tão logo o sonho contemporâneo coletivo dê conta do delírio político-massivo e surja como força de produção, de regeneração, de alegria. Talvez já nos tenham usurpado a utopia. Mas nunca o delírio. 

Feito à Mão é uma parceria da Musicoteca com o Programa Na Ponta da Agulha de Jorge LZ. Escrito por Janaina Fellini e Cristiano Castilho.

Ser TAO – O Caminho. André Balboni e Quadril Quarteto de cordas

Coluna de Janaina Fellini inspirada na audição do podcast “Na Ponta da Agulha, de Jorge LZ, edição: André Balboni” com colaboração na escrita de Cristiano Castilho. O podcast inspirador você pode ouvir abaixo:

A última viagem que fiz antes do isolamento social foi em fevereiro, para visitar as cavernas do PETAR – Parque Estadual Turístico do Alto da Ribeira. Acampamos no Moriá, camping do seu Maurício e família, com quem passamos longas horas aprendendo sobre a simplicidade da vida e sobre agir em coerência com a natureza em nossa breve passagem por esse mundo. Foi um tempo em que a sabedoria verteu dos olhos daquela gente. E dos nossos, pouco sábios, porém não menos encantados.

Nosso guia, o Seu Milton, era um senhor de pouca prosa. No primeiro dia, já desgostamos porque não nos contou as datas, nem a história, nem o contexto precedente das cavernas. Não sugeria os melhores ângulos para fotos, nem nada do que os outros guias supostamente deveriam fazer. Mesmo assim, seguimos para o dia seguinte, e o seguinte, e quanto mais tempo ao lado do silêncio do Seu Milton, e de todos os pequenos cuidados dele com o grupo (estávamos com um pequeno aventureiro de 7 anos), mais aprendíamos sobre a simplicidade. Sobre sentir e não raciocinar. Sobre encantamentos silenciosos e cavernas meditativas.

Um dia, depois de caminharmos pela caverna Santana, famosa por suas instalações percussivas, cantarolando melodias imaginárias e inventando ritmos sem compasso, Seu Milton soltou o verbo:

– Nesta caverna aqui, Hermeto Pascoal gravou com seus músicos. Ele visitou o parque, organizou tudo, instalou equipamentos…

Foi o nascimento da Sinfonia do Alto da Ribeira, em 2012. Uma composição do mago Hermeto Pascoal em parceria com a natureza. Um olhar junto e através, uma proposta de extensão de caminhos e percursos musicais em que o contexto é tão parte da composição quanto cada nota criada por seu compositor e tocada por seus intérpretes.

No mesmo ano, o músico Jarbas Agnelli foi inspirado por uma foto na qual pássaros descansavam e sem querer desenharam uma melodia na pauta dos fios elétricos. A imagem foi registrada pelo jornalista Paulo Pinto, do jornal O Estado de S. Paulo. A composição “Birds on the Wires” nasceu dessa leitura poético-musical sobre a natureza e suas nuances silenciosas de comunicação, no diálogo com o ambiente ao qual pertencem. A canção viralizou, tanto pela sua história quanto pela sua beleza musical.

“Ser Tao”, novo disco do instrumentista, compositor e terapeuta André Balboni, é uma obra instrumental inspirada pelo livro “Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa”. São 10 faixas interpretadas por André Baldoni na companhia do Quadril Quarteto de Cordas, formado por quatro instrumentistas mulheres – Alice Bevilaqua e Mica Marcondes (violinos), Elisa Monteiro (viola) e Vana Bock (violoncelo). 

“Ser Tao” desenha em sua pauta, provavelmente não desavisada, um caminho sofisticado que soa simples para quem ouve. Um instrumental que poderia estar escrito na pauta desenhada por pássaros ou brotar de melodias imaginárias no interior de cavernas.

Talvez o álbum seja uma homenagem involuntária a Moraes Moreira, que morreu em abril deste ano. Em 2018, o eterno novo baiano lançou o disco “Ser Tão”, em que navega pelas veredas do cordel. A diferença é que a sonoridade de André, mais profunda, é não verbal– ao contrário do álbum de Moraes, inspirado pela literatura de cordel. André é guiado pela tradição inovadora de Heitor Villa-Lobos, que deu cara e corpo à música folclórica brasileira. Assim, “tão” ganhou novas cores e interpretações.

TAO é uma palavra traduzida do ideograma chinês, para descrever “caminho”. E nesse caminho, a relação entre o homem e a natureza, o homem e sua comunidade, o eu e o outro, a parte e o todo. Assim como em “Grande Sertão Veredas”, Guimarães Rosa descreve as narrativas inventadas no cotidiano inquieto, filosófico, complexo e ao mesmo tempo, muito simples de seus personagens.  

Como a imagem da lua exatamente como a enxergamos (ou nos enxergamos) no céu, quando o ciclo alcança a metade do tempo no quarto minguante, ou a metade do tempo no quarto crescente: metade luz, metade sombra. Céu e terra, começo, fim e continuidade. O TAO. “Ser Tao” é uma boa companhia para o caminho de quem está há 5 meses na caverna de casa, inventando seus sertões, observando a lua, desenhando pautas despretensiosas, sentindo saudades de voar sem medo pelos ambientes aos quais pertence.

Velas ao vento

Coluna de Janaina Fellini inspirada na audição do podcast “Na Ponta da Agulha, de Jorge LZ, edição: Du Gomide” com colaboração na escrita com Cristiano Castilho. Um texto feito à duas mãos. O podcast inspirado você pode ouvir abaixo:

Noite passada tive um sonho: em frente a um cemitério, vi uma planta morrer. Molhei a terra onde estavam raízes quase secas daquela espécie desconhecida, e imediatamente um caule verde e delicado se levantou. Flores finas e brancas se abriram. Os frutos, algo entre amora e morangos, nasceram saudáveis e impecáveis. As imagens vivas e a agradável sensação de presenciar uma vida renascendo, gerou em mim, brevemente, a vontade de permanecer ali mesmo, naquele corredor onírico que vislumbra um final feliz.

Em 1578, o filósofo, teólogo e astrônomo Giordano Bruno teve um sonho: ele despertava no interior de uma esfera com estrelas, confinado. Foi até a extremidade da esfera, e tocou as estrelas. Sentiu um certo apavoramento. Em seguida, foi tomado por uma manifestação de coragem. Saiu da esfera, voou cada vez mais alto, subiu, subiu e, deparando-se com a sensação de que não havia limites nem acima, nem abaixo ou ao redor, ele pôde ver, sentir e experimentar o universo infinito. Como um observador, viu o sol e mais estrelas. Visitou galáxias e entendeu que existiam outros sistemas além do que se aceitava como verdade à época. Por defender ideias como esta, que lhe foi apresentada num sonho, Giordano Bruno foi queimado vivo pela Igreja. Isso aconteceu 10 anos antes de Galileu provar que sua visão sobre o mundo, baseada na experiência de um sonho e de várias outras hipóteses levantadas por pesquisadores anteriormente, como Copérnico, estava certa. A Terra não é o centro do universo. E nem os astros giram ao nosso redor.

Os povos indígenas valorizam o sonho e levam em consideração seu conteúdo em suas decisões cotidianas. De acordo com Kaká Werá, escritor e ambientalista brasileiro de origem tapuia, o sonho é um lugar onde se obtém conhecimento e informação. Esses recados vêm de seres que, no mundo físico, não são reconhecidos como capazes de se comunicar conosco – plantas, animais, rochas. O sonho regido pelo reino vegetal torna-se, nesse universo abstrato, um portal de comunicação dos reinos da natureza com a nossa alma, com o inconsciente individual e coletivo. O espírito da noite e da escuridão rege os elementos da terra, da água, do ar e do fogo, que trabalham na fronteira entre o sono e o sonho, liberando nossos processos psíquicos, emoções, preocupações, ansiedades e acontecimentos do nosso cotidiano, restaurando e nutrindo nosso organismo para a retomada da vida no dia seguinte. Alimentos como a mandioca e o guaraná foram sonhados pelos antigos tupis, antes de serem consumidos. Alguns remédios que estão presentes na cultura indígena também foram sonhados. Os Xavantes, antes de aceitarem a visita dos irmãos Villas-Bôas, sonharam que já era o tempo de receber algumas presenças que estariam preparadas para acessar o conhecimento do povo indígena. Nas culturas que preservam a sabedoria ancestral, não sonhar sinaliza uma desconexão interna e com a natureza. A personalidade e a essência da alma estariam em desencontro. Sonhar é sinal de consciência e o sonho é para ser cuidado, conhecido e desvendado.

Sidarta Ribeiro é um neurobiólogo brasileiro, diretor do Instituto do Cérebro, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Sua pesquisa traz o sonho sob a perspectiva ampliada de que sonhar é um fenômeno tão complexo, que se torna impossível explicá-lo por meio de um único paradigma. No seu livro “O Oráculo da Noite: a História e a Ciência do Sonho”, Sidarta reúne uma narrativa que atravessa o tempo e os níveis de organização da matéria, sociedades e culturas. A tese é de que o conjunto de múltiplos saberes agregados ao longo dos últimos 300 mil anos formam uma base que valide todo esse conhecimento interdisciplinar, como partes uns dos outros. Uma espécie de nuvem de sonhos e sonhadores onde toda a sabedoria é validada e acolhida, de acordo com as suas diretrizes no caso da ciência, ou das tradições, no caso da sabedoria indígena, ou ainda arquetípica para algumas linhas da psicologia. Neurociência, biologia, antropologia, psicologia, espiritualidade e ancestralidade tornam-se complementares nesta perspectiva, e sinalizam para a importância de reintegrar os sonhos ao nosso cotidiano, como uma ferramenta oracular de criação do futuro e da própria realidade.

Ao longo do tempo, a civilização ocidental capitalista se fundou na realidade e abandonou o sonho. O ato de narrar sonhos ao redor de uma fogueira, de compartilhar o conteúdo desse universo paralelo e atribuir a ele a função de promover novas perspectivas em comunidade acompanhou, segundo Sidarta Ribeiro, mais de um bilhão de noites da humanidade. Mas hoje se tornou um farol abandonado.

Quando ouvi o novo trabalho do músico, compositor e produtor Du Gomide, o álbum “Vela Acesa”, me perguntei se, ao propor uma travessia onírica, mística, profética, espiritual, reflexiva, otimista e dançante, Du teria, de alguma forma, atravessado os níveis de organização da matéria, e assim, acessado nesse espaço onírico o material para tornar possíveis as perspectivas e histórias narradas nas 8 faixas do disco. Sem dúvida, é para ser ouvido na quarentena. Uma vela acesa, um farol reativado para repensar a sociedade, as escolhas coletivas e individuais, para incluir alguma prática espiritual ou de conexão na rotina. Para amar e romantizar um pouco. Afinal, merecemos algum descanso mesmo que sob o conforto da ilusão, e, sobretudo, para deixar chegar algum sorriso livre, pelo simples fato de ouvir uma música e por ela ser levado a um estado de sonho ou de suspensão da realidade.

Este é o segundo disco solo de Du, músico muito requisitado por estas bandas. Em relação ao primeiro, “All In”, de 2014, este trabalho é mais abrasileirado, sedutor e profundo. O processo onírico proposto por Du Gomide começa com a sugestiva “Altar Nativo”, precedida por sons de pássaros. É uma reza moderna e naturalista. A faixa-título esbanja suingue e mostra o melhor da voz leniente de Du, que arma seu altar em definitivo e nos convida a dançar no escuro – ouça a mata chamando. “Cai Rei, Cai Rainha” é o futuro visto pela luneta do sonho. “Nos mantemos de pé”, canta ele. “O hoje é só o que temos e não vamos temer o futuro/que por mais que esteja escuro/ tem muita estrada pela frente”.

Com participações de Bernardo Bravo, Tuyo, Bianca Rocha e Iana Rocha, vozes sonhadoras, refrões poéticos e melodias sinestésicas, “Vela Acesa” estende sua ponte para possibilitar uma travessia mais leve, nestes tempos suspensos e inéditos, em que a realidade alguns dias parece sonho, e em vários outros, pesadelo. Se o cérebro reverbera informações e memórias do passado para simular o nosso futuro, pegue sua melhor roupa de sonhar, escolha um lugar gostoso, incenso, vela, cobertor – se você estiver em Curitiba – e ouça. Aliás, o que você tem sonhado nesta quarentena?

Aliás, o que você tem sonhado nesta quarentena?

Coluna de: Janaina Fellini
Colaboração na escrita e autoria: Cristiano Castilho
Colaboração de conteúdo: Jorge LZ
Foto: Cisco Vasques

Em pleno verão: Elis, do fim ao começo

São 18h31 do dia 3 de abril, e anoitece no outono pandêmico curitibano. A foto, sem filtro, registra este momento, em que a estação se manifesta pela primeira vez por aqui, soprando aquela brisa geladinha, movendo a macia presença da luz do sol, e, paradoxalmente, dando lugar a uma ponta de saudade do inverno que ainda está por vir.

Feito à Mão inspirada no álbum Em Pleno Verão, de Elis Regina no podcast “Na Ponta da Agulha”

Daqui a dois meses, o sopro de vento gelado irá se dissolver em enganosas manhãs de sol. Estaremos então agradecendo pelo fim da pandemia? Este acontecimento forte e simbólico terá ou trará algum novo valor para a humanidade? Acredito que sim. E também que estaremos melhores em várias dimensões da existência. Tristes, talvez, pela imposição da mudança dos hábitos, das relações, do trabalho. Por tudo e todos que nos colocaram diante da perspectiva de mortes reais e simbólicas tão perto a cada dia. Daqui a 50 anos, contaremos essas histórias políticas, sociais, culturais, poéticas e trágicas, registradas para sempre em cada um de nós e na memória do mundo.

Este é um tempo divisor de águas. Um intervalo que nos propõe rever relações familiares e pessoais, ressignificar visões de mundo, valores sobre bem-estar, saúde, economia, vida e morte. Antes e depois. Pode ser uma ponte, pode ser uma cisão (que tal dar uma olhada no texto da edição passada?). Eros e Tânatos, ativos em campo, nos sopram em arrepios diários, a vida e a morte de nossos corpos, e o próprio fim de um tempo em si. Uma fenda listada nas dimensões entre o que foi e o que será da humanidade. Gênesis ou apocalipse?

Às 18h31 do dia 3 de abril de 1970, o Brasil era um país sob ditadura. O sopro da brisa era feito de censura de encontros, ideias, criações, imprensa, arte. Ela assombrava, ameaçadora, a vida real. Para Elis Regina, era o ano do lançamento do álbum que, até hoje, é considerado um divisor de águas na carreira da cantora. Em Pleno Verão, nascia como o sol de um dia diferente. A chegada de uma nova estação, a quarentena, a dúvida ou medo ressignificaram o trabalho de Elis Regina.

No oitavo álbum de sua carreira, Elis, que até então vinha resistindo a novas propostas sonoras que emergiam com o surgimento da Tropicália e da Jovem Guarda, traçou novos contornos com músicas de Jorge Ben, Caetano Veloso, Gilberto Gil, incluiu uma participação especial de Tim Maia na composição do próprio e se deixou levar pelas leis da impermanência. Abriu espaço para os novos ares, e mostrou em Verão Vermelho, uma espécie de pressentimento do que no início dos anos 2000, tornou-se um tipo de interpretação na qual a voz executa a mesma função de um instrumento, cantando melodias sem letra, ou percutindo células rítmicas que compõem camadas sonoras dentro da música. Em Pleno Verão é o resultado da sublimação da velha Elis Regina que surge reinventada em novos espaços de si e em conexão com as mudanças do universo musical ao qual pertencia. Ela foi capaz de enfrentar Eros e Tânatos dentro de si, para deixar morrer uma cantora que à época estava à beira de tornar-se parte de um inverno passado, para nascer, aos 25 anos de idade, como a maior estrela da música popular brasileira em seu pleno, vermelho e majestoso verão. 

Para a psicanalista Maria Homem, a dualidade, essa divisão subjetiva que congela os verões mais ensolarados e derrete geleiras ancestrais, morrendo e nascendo incessantemente no espectro psíquico inconsciente, fica claro que estamos implicados na constante conquista do ciclo de vida, morte, vida: “Somos consciente e inconsciente, pulsão e linguagem, somático e psíquico, Eros e Tânatos. Como não transitar entre polos, sendo que é o conflito que nos move e nos aterroriza?”. Na mitologia grega, existem dois significados possíveis para Eros. Na psicanálise, a personagem representa o desejo como força vital, como o sumo que alimenta a vontade de viver. O professor Guilhermoso Wild explica:

Transitar entre polos não significa bater três vezes na madeira toda vez que se ouve, diz ou pensa sobre a morte como um acontecimento certo para todos e para si mesmo. Para efetivar uma caminhada que contemple o espaço da vida e da morte, real e simbólica, é preciso também ressignificar esse trânsito, essa passagem, esse rito, e inseri-la, a morte, como parte da existência presente e necessária, especialmente no plano simbólico. 

No final da tarde de uma terça-feira qualquer, vesti uma blusa branca meia estação, pedi para um ex-namorado me acompanhar, e corajosamente fui assistir a uma sessão do cineclube da morte. A proposta do projeto é rodar um filme que trate do assunto e depois interagir, com perguntas e reflexões. Neste dia, o filme foi “A Partida”, de Yojiro Takita. O cineasta japonês nos oferece sua visão ritualística da morte como processo pertencente à vida. Dá valor ao fim porque sabemos de sua existência, e também porque temos esse privilégio, de poder fazer algo até lá.

Tom Almeida, um dos criadores do cineclube e do movimento InFinito, é um ativista. Uma pessoa que dedica a vida para tratar da ressignificação da morte, este que é ainda um dos maiores tabus da humanidade – e a única certeza que todos nós temos (adoro esse clichê): vamos morrer um dia. Para Tom, criar espaços para falar sobre a morte, nos dá a possibilidade de acordar, sob novas cláusulas, a própria vida. “A morte é uma grande oportunidade para se pensar e se entender como ser humano finito. A partir do momento em que se torna possível aproximar-se da morte como algo que pode acontecer a qualquer momento, acontece a ponte para a reflexão sobre o que é importante na vida hoje. Onde quero trabalhar, perto de quem quero estar, como quero viver agora. É, em essência, um profundo trabalho de autoconhecimento. Falar sobre a morte não é só sobre dor, medo e angústia. É sobre amor, gratidão, pertencimento, conexão e espiritualidade. A morte não é o fim da vida, não é o oposto da vida. Ela faz parte. A morte está dentro da vida”.

Tânatos é o mensageiro da morte na mitologia grega. Guilhermoso Wild conta como essa personagem figura no cotidiano e representa a fantasia que cultivamos de poder supostamente, enganar a morte no momento da sua chegada.

O psicanalista e psiquiatra Jorge Forbes criou o termo “Terra Dois”. Por meio deste conceito, expõe o contraste do que, segundo ele, representa a imensa mudança que estamos vivendo, especialmente nos últimos 30 anos, nos paradigmas dos laços sociais humanos. Tudo aquilo que um dia já foi verdade, hoje não é mais. “Estamos agora no tempo do homem sem bússola. Estamos em um novo planeta, não estamos dando conta e estamos usando remédios de épocas anteriores. Nem nascemos, nem passamos pelas fases da infância, adolescência, vida adulta, envelhecimento e morte como antigamente. As relações afetivas estão diferentes, as pessoas têm mais de uma profissão, não nos aposentamos mais. Tudo mudou.” De acordo com Forbes, na “Terra Um”, as relações eram verticais, a orientação era paterna, a verdade era estabelecida e inquestionável, o diálogo era mais presente, o amor tinha um formato estável e o futuro era uma projeção que pautava toda a vida no presente. Na “Terra Dois”, as relações são horizontais, as articulações são coletivas, o mundo é líquido, as certezas são temporárias, busca-se ressoar em vez de raciocinar, novas formas de amor são experimentadas e o presente nos é apresentado como invenção – e não projeção – do futuro passível de mudança a todo o instante.

Talvez, depois da pandemia do coronavírus, seja necessário estabelecer o conceito de “Terra Três”. Um planeta que nascerá daqui a pouco, após uma gestação de humanidade já feita – o escritor uruguaio Eduardo Galeano, aliás, já afirmou que “este planeta está grávido de outro planeta”. E enquanto nós estamos em casa, obrigados a experimentar, no mínimo, a morte dos planos diários que tínhamos traçado, alguns organismos, estão (re)vivendo e ocupando seus espaços plenamente. O tempo que a natureza, à sua maneira, nos impôs, nos dá outra chance de perceber que os aparatos que escolhemos para mover a vida cotidiana estão tornando a coexistência com o planeta inviável. A Terra, que até hoje assistiu sua morte anunciada, dá sinais de que pulsa como organismo vivo e conectado. Pelo menos no universo simbólico. No paradoxo que estabelece o trânsito entre as polaridades da vida e da morte aos olhos do planeta, todos os dias são publicadas matérias que dão conta da perspectiva da pandemia sob o ponto de vista da regeneração da Terra. Quando a China esteve em quarentena, por exemplo, a Nasa registrou uma diminuição nos níveis de poluição do ar, atribuída a restrição das atividades cotidianas de milhões de pessoas.

Eu, da janela do apartamento, vejo dia após dia, o terreno baldio ao lado sendo repatriado por inúmeras borboletas que voam brincando entre si e com o vento. Nesse sentido, o mecanismo de autorregulação promovido pela Terra, pode servir como um exemplo para a nossa própria autorregulação. O isolamento torna-se um convite para mergulharmos nas nossas emoções, relações, afetos e finalmente perguntarmos: o que é importante para mim agora? Quando tudo isso ficar no último verão, quem serei eu? Quem seremos nós? Qual será o pleno verão instalado em mim, a partir da proximidade com morte e vida? O que vai morrer e o que vai viver? Quais raios tecidos pelo brilho do calor mais intenso, pelo vigor de novas manhãs, ganharão espaço e expressão? Elis Regina morreu na “Terra Um”, aos 36 anos. Não sem antes experimentar intensamente os verões e invernos, e as mortes em vida que a transformaram, seguindo o destino e o movimento da sua alma.

Elis no Mapa Astral por Rafaella Gallegari

 FEITO À MÃO INDICA:

– Programa na Ponta da Agulha (link no início da matéria).
– Álbum Em Pleno Verão (Elis Regina)

– Filme: A Partida, do japonês Yojiro Takita.

– Movimento InFinito:
http://infinito.etc.br/

– Curso de Mitologia Grega com Guilhermoso Wild:
@guilhermosowild no Instagram

– Maria Homem no youtube:
https://www.youtube.com/channel/UCeT74ntD25ACU_fVfUWZzsg

JANAINA FELLINI
Musicista, jornalista, terapeuta, sagitariana, água, calor e longas conversas em noites de vida e sonho. Meu trabalho é atravessar realidades. E delírios.

CRISTIANO CASTILHO
Jornalista formado pela UFPR e pós-graduado em Jornalismo Literário pela ABJL. É autor do livro “Crônicas da Cidade Inventada e Outras Pequenas Histórias” (Arte & Letra, 2019). Entende a difusão cultural e a proposta de diálogo como possibilidades socialmente transformadoras.

FEITO À MÃO Os textos derivam inspirações a partir de trabalhos musicais. Não necessariamente expressam o pensamento ou a linha traçada pelo artista. Estas informações, você pode acessar ouvindo a entrevista do programa Na Ponta da Agulha, com apresentação de Jorge Lz.

Feito à Mão: Todo Homem é Dois

Feito à Mão inspirada no álbum Aqui Deus Andou, de Beto Villares no podcast “Na Ponta da Agulha”

Esse texto foi concebido dentro de um ônibus, em uma poltrona que eu rezei (é verdade) para que ninguém sentasse ao lado e que não estivesse contaminada. A madrugada parecia vivificar o que na minha adolescência seria uma possível metáfora  das histórias de George Orwell ou de Aldous Huxley, hoje seria um episódio de Black Mirror, e, para qualquer tempo, seria a experiência da humanidade prenunciada pelo escritor português José Saramago em sua obra Ensaio sobre a Cegueira. Dois dias depois da Organização Mundial de Saúde classificar o coronavírus como pandemia eu, já com a sensação de desespero interiorizada, voltava para a casa para iniciar a quarentena ao lado da família.

No ônibus, depois de acomodada, rezada e menos apavorada, ajustei os fones de ouvido e comecei a melhor das viagens: ouvir pela primeira vez um álbum e me deixar levar pelas sensações, soltando aos poucos o medo, a aflição e a insegurança, em parte reais, e em parte, criadas pela minha mente.

A imagem da capa do CD era o rosto do amigo e produtor do meu segundo álbum, Beto Villares. Que honra! A imagem, envolta por uma luz, responde ao equilíbrio perfeito da sombra. Li o título: Aqui Deus Andou. Olhei para o lado, poltrona vazia. Depois do corredor, uma pessoa de máscara. Em algum lugar lá do fundo, alguém tossindo. Foi no meio dessa cortina de caos que a trilha sonora cheia de paradoxos, extremos, poesia, dança e calmaria, atravessou a madrugada comigo e me levou a pensar e sentir a luz e a sombra, o céu e a terra, deus e o diabo, a dualidade humana, a cisão, as pontes, o equilíbrio, a casa.

Na primeira faixa do álbum, Abre a Casa, fui me conectando com a ideia de uma morada, um lugar para onde se pode ir descansar do lado de dentro. Essa onde estamos todos, toda a humanidade – pausa para pensar na dimensão disso – sendo obrigados, por um vírus, a entrar. Nas casas construídas também, mas ao nos despirmos do mundo de fora, entraremos cedo ou tarde, na nossa verdadeira morada, na qual apesar de nunca termos saído, raramente entramos. Paradoxal, não é mesmo? A casa onde mora nosso “eu”, onde está a nossa essência, a nossa consciência e também a falta dela. Essa onde guardamos nossas memórias, lembranças, emoções, padrões, o jeito como enxergamos e como nos relacionamos individualmente e com o mundo. A casa-corpo-coração-mente-espírito, do lado de dentro.

O livro “Viagem Extraordinária ao Centro do Cérebro”, explica como na visão da neurobiologia, nosso organismo se conecta para produzir emoções e ações a partir desse misterioso território ainda pouco mapeado, a que chamamos de cérebro. Pois bem, se agora eu abrisse essa casa (do cérebro) e tivesse tickets – com bancos de álcool gel, é claro – para viajar por dentro de mim mesma, não tardaria a encontrar respiros de descanso dividindo espaço com uma natureza dual e cheia de conflitos. Assim como a luz e a sombra na capa do CD, assim como quando no dia-a-dia me deparo com contradições a respeito do que sinto e penso, do que quero sentir e quero pensar. Algo como quero, mas não quero, vou, mas volto, siiiiim, só que não. Paradoxal e subjetivo, como se parte de mim quisesse muito algo, enquanto outra parte também minha, com a mesma intensidade, não quisesse de jeito nenhum. Ao final da batalha, vence quem está mais forte naquele momento. Ou seja, eu mesma, me torno refém das minhas vontades e pensamentos, e ajo às vezes de acordo com o que quero e, às vezes, com o que não quero.

Salve essa foto dica nos seus arquivos! ,-)

Jean-Didier Vincent, autor do livro, atribui ao cérebro essa dinâmica, e defende a teoria de que a alma está no cérebro e de que um não existe sem o outro. Embora não compactue com o conceito de dualidade, o autor admite que paradoxos existam, e que são respostas a uma cadeia de estímulos conjuntos de emoções aprendidas e reproduzidas por caminhos neurais. A cientista Jill Bolte Taylor, que pesquisa o cérebro, teve um derrame e pôde estar no papel de observadora de si mesma enquanto o evento acontecia. Taylor usa sua própria história para contar na prática como o lado direito do cérebro humano está conectado com nossas experiências místicas e o esquerdo muito mais ligado à capacidade de agir racionalmente.

A cientista Jill Bolte Taylor para o TED.

Em anatomia, quando nos referimos a um lado, usamos a palavra antímero. Ao invés de lado direito, antímero direito, por exemplo, e apesar da separação didática, o corpo é um sistema totalmente integrado. Os hemisférios direito e esquerdo do cérebro são separados por uma fissura profunda, ao mesmo tempo em que permanecem unidos por uma ponte chamada corpo caloso, cuja função é transferir informações de um lado para o outro, de forma harmônica. Aí já encontrei a explicação poética de cisão, ponte e equilíbrio. Nossa estrutura interna já guarda em si o conceito de separação (fissura) e a ponte (corpo caloso), temos tudo e nada. Luz e sombra contra ou a favor. Cada um faz a sua escolha.

Luz e sombra são metáforas da já velha conhecida dualidade da natureza humana. Sim e não, dentro e fora, branco e preto podem traduzir sensações internas bastante corriqueiras para alguns, ou possivelmente, muitos de nós. Na psicanálise, a dualidade diz respeito a batalha interna que permeia a existência. Não é possível estar o tempo todo em equilíbrio, já que somos feitos por camadas que se separam e se atravessam de forma desordenada e atemporal. Neste caso, o “eu” é um território que está sempre em conflito. Na estrutura psíquica, é impossível estar lado a lado consigo mesmo o tempo todo. Para chegar à luz é necessário atravessar a própria sombra. O caminho para a totalidade, nesse contexto, implica em olhar profundamente para as cisões. 

Já os ensinamentos de Buda, apontam para uma estrutura onde nós somos, em essência, a totalidade. A prática meditativa é um caminho de volta para a verdadeira casa, onde o espaço de paz e concordância são presentes na maior parte do tempo. Meditando é possível dissolver a dualidade até tornar-se unidade, promovendo uma convivência harmônica em si mesmo, como a função do corpo caloso ao atravessar informações de um lado para o outro do cérebro sem conflito. A Monja Coen, que segue a tradição zen budista, explica que as práticas meditativas transformam a mente humana, e a meditação é uma ferramenta que guia o caminho da dualidade para a totalidade: “não há dentro nem fora. Tudo está em comunicação constante”. 

Apesar das diferentes teorias e visões a respeito da natureza dual ou total do ser humano, há uma ponte, uma concordância harmônica, um corpo caloso, que atravessa a fissura conceitual: tornar a luz mais presente do que a sombra no cotidiano, depende exclusivamente da vontade individual. Não é possível que uma terceira força magicamente recolha nossas incertezas ou atue como mediadora dos conflitos.  Não há viagem para fora. A sombra, num primeiro momento, diz daquilo que não se quer ver. Mas ao atravessá-la verdadeira e corajosamente, reconhecendo os mais rechaçados sentimentos como parte de si e da natureza humana, é que a luz pode se apresentar em seu imperfeito estado de equilíbrio.

Seja lá qual for o ticket escolhido para viajar nos cômodos da sua casa de dentro, o caminho precisa ser feito passo a passo, por você. E então um território de trajetos tortos, inconstante, sem garantias e ao mesmo tempo, conciso, brilhante e primoroso poderá ser mapeado, e o caminho, escolhido. Antímeros de um mesmo corpo. Um tour que vai das varandas mais floridas aos porões mais abandonados de si. Córtex, hipocampo, pineal, terceiro olho, seja lá o que for possibilita o mapeamento da geografia interna, onde transformamos nossas emoções, e as traduzimos em histórias para o mundo, somos território por onde deus, o universo, a magia, a força da vida, andou e anda. Na luz e na sombra. Termino mais essa incursão com a frase do escritor argentino Jorge Luis Borges, em seu conto Os Teólogos: “todo homem é dois. E o verdadeiro é o outro”.

Você que chegou aqui, ao final desse texto brevemente conflituoso, dual, porém em busca da totalidade, separado por fissura, ligado por corpo caloso, receba esse doce e responda: dois amores é cisão ou ponte? A Mariana, dona de uma da confeitaria Petite Marie, onde em vários dias chuvosos e cinzentos, levei meu hipotálamo para ter uma sensação de saciedade, liberou a receita para nós. Merecemos!

Salve a receita em seus arquivos! ,-)

FEITO À MÃO INDICA
– Álbum Aqui Deus Andou, de Beto Villares:

Spotify:

Youtube:

– Dois amores da Confeitaria Petite Marie:

https://www.docespetitemarie.com.br/

– Livro Viagem Extraordinária ao Centro do Cérebro (Jean-Didier Vincent).

– FICA EM CASA.

JANAINA FELLINI
Musicista, jornalista, terapeuta, sagitariana, água, calor e longas conversas em noites de vida e sonho. Meu trabalho é atravessar realidades. E delírios.

FEITO À MÃO
Os textos derivam inspirações a partir de trabalhos musicais. Não necessariamente expressam o pensamento ou a linha traçada pelo artista. Estas informações, você pode acessar ouvindo a entrevista do programa Na Ponta da Agulha, com apresentação de Jorge Lz.

AGRADEÇO à Raquel Bombieri por jogar luz nesse texto, quando eu, sem perceber, parei para descansar na minha própria sombra.

Novo clipe de “Cais” pela cineasta Wiktoria Szymanska

Se você é entusiasta da arte brasileira e costuma projetar imageticamente esse amor em para um campo infinito na ansiedade de querer que o mundo entenda essa nossa potência poética toda vez que se apaixona por um artista local, esse post pode ser pra você. Porque é dessa mesma dimensão que escrevo agora.

A trilogia musical do duo Versos Que Compomos na Estrada iniciou-se em 2012, quando dois forasteiros poetas, Lívia Humaire e Markus Thomas, se encontraram em seus infinitos particulares. O que era ponto de fuga e alimentação artística logo se tornara um imenso e enraizado mapa a se caminhar, compor e encontrar. Seus três álbuns são considerados diamantes afetivos, uma imersão auditiva de densidade inquestionável com composições que resgatam e revigoram a tradição e a originalidade do cancioneiro brasileiro que se consolida modernidade a dentro. Abaixo você pode ouvir e conhecer os três discos de sua trajetória.

Caminhadas e os encontros são inerentes as obras do Versos. E foi num desses percursos que nasceu o seu primeiro vídeo clipe para a canção “Cais” que ganhou uma tradução cinematográfica assinado pela cineasta polonesa Wiktoria Szymanska. A roteirista premiada em diversos festivais de cinema pelo mundo e apaixonada por culturas, entre elas a música brasileira, ficou tão encantada com a profundidade do duo, que em parceira com o Versos, integrou a canção em seu longa “13 Summers Underwater” de 2017. O filme conta histórias paralelas de vida e morte, e a exaltação do sensível que nos faz transcender traumas que conectam vidas e histórias fazendo com que seus personagens consigam estabelecer uma comunicação intensa e independente mesmo a longas distancias e sem se conhecerem. O olhar fotográfico, a trilha e a intensidade poética são pontos exaltados pela crítica para essa película. Omar Juajez assina a direção de som, e Pascual Reyes a música original.

Clipe de “Cais” original pela cineasta Wiktoria Szymanska

Cais foi a canção selecionada para trazer memórias ao filme, usando o além das culturas e seus idiomas como forma de atravessamento do sensitivo da música que veste seus personagens mesmo em idioma diferente do senso comum ao preferido inglês. Esse vídeo clipe é uma obra a parte criada a partir de trechos e capturas do longa para agora fazer o caminho de volta à original canção. Uma edição exclusiva da cineasta que selecionou e recortes para vestir a música com as roupagem poética do filme para esse vídeo clipe inédito. O resultado é uma sensível viagem de reencontros, que pode ser de volta ou de ida, como suas memórias quiserem a traduzir. Assista.

Feito à Mão: Tempo Mínimo de Delia Fischer

Por Janaina Fellini, musicista, jornalista, terapeuta, sagitariana, água, calor e longas conversas em noites de vida e sonho. Meu trabalho é atravessar realidades. E delírios.

Esta leitura não vai demorar. Porém Cronos vai passar na mesma medida em que durar o texto. E não terá volta nem negociação. Faça, em tempo, sua escolha.

SOU ALGO QUE JÁ SE MODIFICOU
Feito à mão inspirada no álbum Tempo Mínimo, de Delia Fischer

Na primeira volta, caminhei contornando o lago que preenche o centro da pista do parque Bacacheri, em Curitiba. Passei os olhos pela senhora que descansava com os braços abertos no banco, debaixo da sombra. Notei suas roupas estampadas em cor de rosa e marrom, as sobrancelhas tatuadas e o cabelo vermelho. Enquanto ouvia pela primeira vez o álbum Tempo Mínimo, me perguntei em silêncio se a senhora, ali mesmo descansada naquele banco, estaria em paz com Cronos.

Alguns passos à frente, senti as gotículas de chuva que caíam do céu meio cinza meio azul, naquele fim de tarde. Meus olhos arderam pela luz refletida quando olhei para cima, confirmando a chuva de verão. E me perguntei, mais uma vez em silêncio: o que é o tempo?

Na segunda volta, caminhando pelo mesmo lugar, percebi que a senhora já não estava mais ali. À sombra, o banco agora descansava vazio. Chocada com a falta tão imediata daquela imagem relaxada e colorida, respondi a mim mesma, também em silêncio: tempo é um único instante em que tudo acontece. É o que passa. É dia, noite, dia. É o que eu, aos 35 anos, quero desesperadamente segurar.

Conversei com o músico e professor de mitologia grega Guilhermoso Wild, que me contou que os gregos antigos tinham duas maneiras de perceber o tempo: uma é o tempo Cronos e a outra, o tempo Kairós. Cronos é a nossa percepção, por exemplo, da linha do tempo como passado, presente e futuro. O conceito de Cronos aparece na nossa vida prática quando usamos o cronograma, a cronologia, o cronômetro. Já Kairós é o aqui e agora, o momento mágico, a plenitude. Refere-se à riqueza do tempo presente.

A mitologia de Cronos, o Titã filho do céu (Urano) e da terra (Gaia), por Guilhermoso Wild:

A mitologia de Kairós (o tempo presente), o Deus rápido que muitas vezes aparecia nu, filho de Zeus com Tique:

Na manhã quente e ainda preguiçosa de fim de férias, eu toda emaranhada na batalha diária e alternada de ser Cronos e sonhar estar em Kairós, dei de cara com a história da francesa Jeanne Calment, recorde mundial de longevidade. Ela viu a torre Eiffel sendo erguida, conheceu Van Gogh, andou de bicicleta até os 100 anos e parou de fumar e tomar vinho doce aos 121, um ano antes de morrer. Depois de ir e vir me imaginando no corpo e na existência desta senhora, perguntei para a dona Liamir Santos Hauer, de 96 anos, o que é o tempo para ela, que ainda dança nas festas e saraus que frequenta e não dispensa uma boa dose de uísque: “vejo o tempo como uma realidade muito presente. Quanto mais ele passa, mais fica evidente como realidade. Ao sentirmos que teremos menos tempo para viver, também sentimos uma espécie de perda. Mas às vezes me espanto ao lembrar que já tenho 96 anos! E penso: como vivi até aqui e qual o sentido de estar aqui”?

E lendo justamente essa resposta, voltei no tempo. Era dia 2 de fevereiro, eu estava em São Paulo, na casa da minha amiga Luciana Branco e decidimos fazer um almoço com ritual para Iemanjá.  Nesse dia, conversei com a AnaMi, com quem já tinha encontrado algumas vezes no curso de meditação. Ana Michelle Soares tem 37 anos, é paliativista e escritora do livro “Enquanto eu Respirar – dançando com o tempo e com todas as possibilidades de estar viva até o último suspiro”. Criadora do perfil @paliativas no instagram, trabalha com o propósito de ressignificar o conceito de cuidados paliativos, e constrói através da sua própria história, um novo olhar sobre a finitude humana. Por onde a conexão nos atravessou durante o tempo em que estive com AnaMi, acessei a coragem mais genuína e plana da existência. Ao perguntar para ela sobre o tempo, a resposta chegou em linha reta e sem ponto de interrogação:  

“Não sei quanto tempo cabe nesse tempo final. Mas sei o infinito que pode caber no agora do meu tempo. E pode ser leve ou intenso. Claro ou escuro. Sorrindo ou calado. Pra cada tempo um tempo de ser. Pra cada ser, um tempo de estar. Do tempo, só não quero aquele que se desperdiça”.

Na dificuldade de colocar um ponto final nesta narrativa, que para Cronos já estaria atrasada, mas em Kairós, estaria apenas suportando mais um pouquinho de estado de presença, resolvi tirar uma carta da caixeta de palavras Fika Conversas. Um tipo de baralho feito para puxar conversa sobre palavras utilizadas na contemporaneidade e conectar pessoas e ideias através do jogo. A inscrição na caixa convida: vamos jogar conversa dentro?

É claro e inevitável, a carta que tirei foi “Zeitgeist  – O Espírito do Tempo”.

Para Tipiti Barros, criadora da caixeta de palavras, que já teve seu tempo cronometrado pelo mundo corporativo, o tempo é o momento e esse momento está regido pela conexão com a vontade interna. Dá pra ouvir abaixo:

Inundada por essa breve viagem em busca de entender o tempo, agradeço a Delia Fischer, a quem não conheço pessoalmente, e que inspirou essa trajetória feita à mão. A arte é nosso tempo sagrado, atravessador de mundos, linguagens, vontades e sonhos. E nos convido a conhecer mais, ouvir mais, conectar mais. Fazer as pazes com Cronos, passar mais tempo com Kairós. “Não consigo entrar na curva de um tempo, existir sobre o que passou. Sou algo que já se modificou.” (Da canção Orgia, faixa 2 do álbum Tempo Mínimo, de Delia Fischer)

TÁ COM TEMPO?
Então lê esse texto que o professor de física Tiago Debarba escreveu especialmente para o Feito à Mão 😉

A definição do tempo é baseada sempre na sua própria medida, relativa a um período, como os segundos, os anos e suas estações. Mas o que podemos dizer sobre o passado, presente e futuro? Nossa percepção do passado está relacionado a quantidade de informação que o universo gravou na natureza, durante sua evolução. Assim conseguimos medir seus efeitos e as leis da física nos permitem definir a direção da seta do tempo. Percebe-se portanto que relativo ao passado “o tempo não é uma ilusão, percebemos os efeitos do tempo a todo momento” (Jenna Ismael, Universidade do Arizona, 2016). Mas como podemos caracterizar o tempo como uma característica da natureza a partir da  nossa percepção? Será que o futuro permanece uma ilusão relativa a definição de uma seta do tempo, não limitada ao presente? Potencialmente o que conhecemos por tempo não caracteriza completamente o tempo que queremos  descrever. 

Professor de física Tiago Debarba

FEITO À MÃO INDICA
Álbum Tempo Mínimo, de Delia Fischer:
Spotify de Delia Fischer

Curso de Mitologia Grega com Guilhermoso Wild:
@guilhermosowild no Instagram

Caixeta de palavras Fika Conversas:
https://fikaconversas.com.br/

Livro Enquanto eu Respirar, de Ana Michelle Soares:

Livro Enquanto eu Respirar, de Ana Michelle Soares

FEITO À MÃO – Ficha Técnica:
Os textos derivam inspirações a partir de trabalhos musicais. Não necessariamente expressam o pensamento ou a linha traçada pelo artista. Estas informações, você pode acessar ouvindo a entrevista do programa Na Ponta da Agulha, com idealização e apresentação de Jorge Lz.

Canais Na Ponta da Agulha: http://www.radiograviola.com/
Instagram @ProgramaNaPontaDaAgulha

O revolucionário dia que resgatei o colar do Chico César

Foto: Michele Alves

No dia 2 de novembro de 2019, no Circo Voador, durante o show de lançamento de seu novo álbum, O Amor É Um Ato Revolucionário, o colar que Chico César usava caiu no palco próximo à borda. Eis que, sem nenhuma vergonha na cara, um cidadão de bem aproxima-se do palco, pega o colar e o veste tranquilamente, como um troféu. Com orgulho, volta pomposo em direção à sua acompanhante e mostra o feito mas claramente sem assumir – para si mesmo primeiramente – o ato desonesto que acabara de cometer.

Começa um burburinho ao redor sobre o acontecido, quando percebo que a maioria dos comentários vinham de mulheres, que como eu, externalizavam suas indignações. Senti-me muito empoderada por estar naquele lugar e sem pensar duas vezes, fui até o cidadão de bem e dei um tapinha em seu ombro. Ele me olhou sem entender e eu me fiz entender rapidinho: “Cara, me devolve o colar” e estendi a mão. Pouco desconcertado, mas mantendo sua altivez, ele disse que era emprestado e devolveria no final do show. Não desisti e falei calmamente: “não, você vai me devolver agora”. Ele pensou uns segundos e me perguntou se eu era da produção, eu disse que não e ele falou que só devolveria para a produção. Não hesitei em concordar com um sorriso irônico e olhando em seus olhos. De onde estávamos, que era em frente ao palco, olhei para a coxia e como mágica uma pessoa da produção também me olhou. Com aquela música toda era impossível ele me ouvir e falei sem emitir sons e com gestos: “caiu o colar do Chico” e o cara da produção: “cadê?” E eu apontei lindamente para o colo do cidadão de bem que estava parado à minha direita sem acreditar no que estava acontecendo. O cara da produção pediu o colar de volta e o cidadão de bem devolveu, entregando junto parte da sua arrogância.

Quando voltei ao meu lugar, a mulherada que estava indignada e me potencializou, veio me cumprimentar. Olhei cada uma de volta, apertando suas mãos, e dizendo um sonoro: “não passarão”. E parecendo roteiro de filme, nessa hora estava tocando: “Mas nós temos a pedrada pra jogar / A bola incendiária está no ar / Fogo nos fascistas / Fogo, Jah”
Esse colar foi um ato revolucionário.

Música que chama pra brincar

Eles começaram contando histórias e nelas a música, cada vez mais presente, ajudava a abrir portas para o encantamento. Essa presença foi ganhando espaços e se espalhou de um jeito que as histórias viraram canções. Assim nascia a OssoBanda, pra cantar e encantar todas as idades.

Composta pela vocalista Teresa Saci, o baixista Marcelo dos Anjos, Erickson Freitas na guitarra e Esdras Cabral na bateria, a banda paulista tem feito grandes e pequenos balançarem o esqueleto! E ter participado de um Festival de Rock – porque esse ritmo é a marca do som da banda – resultou no nome escolhido: OssoBanda! Que tem o Ossinho como mascote!

Desde 2013, o grupo vem agitando mais e mais lugares, atraindo gente de todas as idades com suas canções cheias de poesia, belas melodias e uma contagiante alegria. Os arranjos são bem pensados e consideram a importância de trazer o melhor para a criança ouvir, brincar e se movimentar em diferentes ritmos. A palavra, trabalhada plasticamente em suas muitas possibilidades de composição e de construção de sentidos, vira brinquedo ou brincadeira por meio de diferentes recursos: repetição de sons, rima, agrupamentos inusitados de palavras entre outros.

Então, quando a música começa, é dada a largada para a diversão. É o que acontece em “Bonde da OssoBanda”, quando a batida irresistível do rock chama pra dançar e cantar “Quero ver ficar parado/ quero ver ficar quieto/ é o bonde da OssoBanda/ balançando o esqueleto”.

Já na suave canção “Maria Fumaça”, o ritmo é outro. Lembra o movimento do trem, ora mais lento, ora mais rápido (“O nome é de menina, maria fumaça/ saindo da praça…/ chique chique, o que é que tem/ depois da curva da montanha?”). A construção dos versos brinca com a sonoridade das palavras além de aguçar a curiosidade e a imaginação: o que pode haver pra lá da montanha? O que cada um quiser! Outros versos ainda desconstroem o lugar-comum: “sim salabim, tem gato comendo capim/ como pode, como pode/ pedaço de gente com pedaço de bode/ cachoeira correndo pra cima/ lobo bom porco mau/ urubu fazendo sarau”. Além de divertidas e inusitadas, essas imagens permitem outro olhar, outro jeito de entender e de fazer as coisas. Afinal, que graça tem receber tudo pronto ou ver tudo sempre igual?

Outra super sacada da banda foi a escolha da palavra “sábado” em “Hoje é sabadábado”. A canção brinca com a montagem da palavra, sugerindo que esse dia da semana é dia de ficar à vontade, de fazer o que quiser, até mesmo reinventar a própria palavra: “ficar dois dias inteiros com a mesma roupa/ porque hoje é sábado/ badabado/ badabado, badá/ hoje é sábado”.

Esse cuidado e respeito em relação ao universo da infância traduz o entendimento da importância da música na vida desse público. Entre seus inúmeros benefícios, ela ativa a curiosidade e a imaginação, diverte e emociona. Por isso, vale trazer diferentes gêneros e estilos musicais para que a criança conheça, possa transitar entre eles, apreciar e até se identificar mais com uns que com outros.

Assim, além de divertir, a OssoBanda cumpre a relevante função de ampliar o repertório sonoro e poético dos pequenos (e também dos grandes), o que torna sua produção artística ainda mais especial e merecedora de reconhecimento. Diante disso, dá pra ficar parado e quieto?

Tudo sobre a OssoBanda aqui ó: http://www.ossobanda.com.br