Marília Landi – Barco

Recentemente, Adriana Calcanhoto deu uma entrevista no programa Vozes do Brasil sobre o seu trabalho “Só”, produzido durante a quarentena. Especificamente sobre o funk “Bunda Lê Lê”, ela diz que “nossa biblioteca individual nunca será completa. Nós vamos completando a leitura uns dos outros. Não é possível ler todos os livros interessantes que existem ao longo de apenas uma vida”.

Para o alívio dos leitores de metabolismo lento, como eu, a declaração é uma espécie de libertação atemporal, uma autorização para desapressar, uma permissão para degustar. Conviver largamente com personagens, frear a leitura por não suportar o possível conteúdo da próxima página, precisar de muito tempo de convívio com uma determinada parte da história, com um pensamento, uma palavra, são etapas que correspondem a dias de digestão. Perde-se o tempo, ganha-se a intimidade.

Na leitura do livro “O Conto da Ilha Desconhecida”, publicado em 1997 pelo escritor português José Saramago, a digestão nunca chegou ao fim. São anos de convivência com algumas interrupções, mas sem nenhum rompimento. Nesse conto, que pode ser lido em menos de hora, por qualquer pessoa em ritmo e desapego normais, um homem vai ao rei e pede um barco para viajar até uma ilha desconhecida. O rei lhe pergunta como pode saber que essa ilha existe, já que é desconhecida. O homem argumenta que assim são todas as ilhas, até que alguém desembarque nelas. E assim, em breves páginas, vai se desenvolvendo a poética filosófica profunda e extensa, permeada por diálogos como este, entre os personagens: “ … Tens com certeza um mester, um ofício, uma profissão, como agora se diz, Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passejar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa…”

Navegando no “Barco”, álbum da cantora e compositora paulista Marília Landi, o primeiro que ela lançou ao mar, não é possível saber se a Ilha existe, ou se vai ser encontrada. Mas é possível seguir no embalo de uma viagem calma e despretensiosa do disco que, ainda à beira, já ganhou arranjos do pianista cubano, e incansável incentivador de novas cantoras Pepe Cisneros. A produção é dividida entre a própria Marília e Guga Stroeter, exceto “Your Heart“, arranjada e produzida pelo pianista Daniel Grajew. São 11 composições autorais com exceção de “No Mundo”, parceria com Guga Stroeter e Pepe Cisneros. A instrumentação é totalmente acústica, e o “Barco” passeia por diversas expressões musicais brasileiras como a bossa nova, choro, maxixe e pelo universo norte-americano do jazz e do rock.

Assim são os primeiros álbuns: barcos que partem em uma viagem sem roteiro, sem destino certo. Alguns navegam longe, demoram, circulam, outros ficam sempre na beira, pertinho de poucas vistas, dessas que estão sempre a olhar, e outros ainda navegam, navegam e voltam para o mesmo lugar. Uma coisa todos têm em comum: partir é sempre para uma suposta ilha desconhecida.

Feito à Mão é uma parceria da Musicoteca com o Programa Na Ponta da Agulha.
Escrito por Janaina Fellini e Cristiano Castilho.

Little Electric Chicken Heart – Ana Frango Elétrico

Quando a última chuvinha ressentida cobriu brevemente o céu e, sem vontade, o chão de água, pelo elevado do solo subiu o cheiro petricor, que é o nome poético do aroma da chuva, como índigo para a cor azul. Petricor, ao terminar de subir seu trajeto até o elevado do ar, alcançou as narinas das pessoas atrás das máscaras e, com vontade, interrompeu inúmeros movimentos apenas para ouvir as exclamações suspiradas no cheiro bom da chuva: que delícia! Saudade de inverno úmido, de água à vontade e banho sem tamanho pré-definido. Aqui no Paraná, estamos atravessando a maior seca dos últimos 30 anos.

Atrás da máscara e junto com a saudade, encolhe-se o formato adaptado dos nossos rostos, guardando à memória o próprio tempo que nos foi contido. Lá se vão mais de 180 dias de isolamento confuso e de pandemia certeira. Quem é da arte lamenta o desapego pelos inúmeros projetos cancelados, reformulados, adaptados para a vida on-line. Quem é do mundo, também. E quem é do mundo e aprecia a arte sabe a falta insubstituível que a presença faz.  A saudade não só nos alcança como joga no colo de todos os dias infinitos, a lembrança de que não sabemos quando será possível trocar com o público ou com o artista, aplaudir e ser aplaudido nos palcos e pelos corpos, ambos sobreviventes da pandemia. Tempos de peste, éons de secura e contenção de alma.

“Saudade” é o nome da primeira faixa do álbum Little Electric Chicken Heart, da carioca Ana Frango Elétrico. O coração se diz pequeno, mas tem compartimentos suficientes para abrigar bossa, samba, guitarras, sopros, uma dose de tropicália, letras surreais tanto ou mais quanto cruelmente reais. Pequenas crônicas, como a faixa “Caspa”, são divertimentos estranhos num mundo em que a poesia, como ela mesma diz, pode ser um atalho contra a saturação da realidade.

De “Promessas e Previsões”, como palavra escrita numa roupa velha, seca o céu, queima a floresta, se estende oca a governança no Brasil. Nos últimos dias, temos acompanhado devastados e paralisados, as queimadas na Amazônia e no Pantanal. De acordo com INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), de janeiro até agora, o Pantanal já teve o bioma equivalente a 15 cidades de São Paulo consumido em chamas. O governo nega. Hoje, o presidente do país declarou que o Brasil está “de parabéns” pela maneira como preserva o seu meio ambiente, enquanto correm soltas imagens de animais silvestres queimados, petições desesperadas pela saída do ministro do meio ambiente e pedidos de ajuda financeira, na tentativa de amenizar as consequências da inanição política.

A sonoridade sinestésica e líquida desta cantora, compositora e escritora a levou a vencer o prêmio de artista revelação da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) de 2019, e a ser indicada ao Women’s Music Event na categoria “Escute as Minas”.

Escute as minas.

Com ranço do termo Nova MPB”, Ana propõe jogos. De palavras, de recortes imagéticos em suas letras, ora surreais ora ingênuas, e sonoros. Rogério Duprat, o arranjador oficial do tropicalismo, ficaria feliz em ouvir a já comentada e jazzística “Saudade”, que abre este seu segundo álbum, sucessor de “Mormaço Queima”, de 2018.

Antes que lhe cancelem por falta de talento específico, é bom avisar que Ana Frango Elétrico, ao que parece, brinca de cantar e compor, sem esquecer de seu lugar no mundo pós-moderno. “Sou homem-bicho-mulher”, diz a garota de 22 anos, que tem admiração pela música brasileira, mas busca, ao seu jeito, romper com algum cordão umbilical ainda retroativo. E o passado, cá entre nós, nunca foi tão presente. O Brasil é cinza e púrpura, para usar um dos nomes poéticos da cor vermelha. Onde o tamanho da vida caberia no coração, mesmo pequeno, de uma humanidade menos perversa? Estamos secos, cercados e queimados. Longe de furar o olho do furacão e pisar na grama fresca só para sentir o cheiro subido da chuva fresca no ar.

Feito à Mão é uma parceria da Musicoteca com o Programa Na Ponta da Agulha.
Escrito por Janaina Fellini e Cristiano Castilho.

Tupiniquin – Canções Pro Fim do Mundo

Há diversos fins do mundo. Uma onça queimada em meio à negação do fogo. A destituição da poesia. O retrocesso deliberado quando o que resta de nós insiste em olhar para frente. A vulgaridade como método. A política como meio para destruir instituições, e por consequência, as sociedades, as pessoas, os sonhos, o futuro. A hipocrisia como pavimento para a perpetuação da ignorância. 

Jorge Tupiniquin leva no sobrenome/codinome um tropicalismo que poderia até ser chamado de anacrônico, não fosse o fim do mundo deliberado um acontecimento com o qual lidamos hoje, de um jeito ou de outro. Este Tupiniquin dos anos 2020 está mais conectado com a essência do movimento setentista do que com sua estética, visual e sonora. Por isso, “Canções Pro Fim do Mundo”, terceiro álbum do cantor, compositor, instrumentista e produtor paulista, soa profundo, longe, imagético, quase desesperado. Contemporâneo. 

O resultado do disco é uma reflexão que vem de algum tempo, e de certa forma foge das instantaneidades que dominam nossos fins de mundo cotidianos. Tupiniquin trabalhou no projeto durante quatro anos, e, com produção de Yuri Kalil, gravou o disco em estúdios no Rio e em Fortaleza.

O single, divulgado na companhia de um clipe, é “Cristalina”. A base no violão convida a voz profunda e ao mesmo tempo pequena de Tupiniquin a flertar com ecos de outros cantos, que nos tempos de hoje, naturalmente, soam mais fantasmagóricos do que angelicais. 

Em “Samba Triste Que me Fez Sorrir”, o destaque é a turma boa de Tupiniquin: Yuri Kalil na bateria, além de Dustan Gallas no piano e sintetizadores, Fernando Catatau nas guitarras, Regis Damasceno no violão de 12 cordas e Dengue no baixo. Esta faixa, em especial, é uma espécie de recado sincero à desolação: o que faz doer nos faz sentir.

Em inglês, “Caroline (The Girl From FB)” lembra, por exemplo, as nuances melancólicas de Beck em seus discos mais recentes, em que o etéreo exposto se confunde com um pop desacelerado. A faixa revela também a força cada vez maior do alter ego feminino de Tupiniquin, Marieva, que começa a cobrar reconhecimento em forma de criação. 

“Deusa Música” tem nome autoexplicativo. A música é uma meta-conversa com a própria música, como numa saudação que vem sem avisar, ainda bem, para colorir um pouco os tempos cinzentos. 

O boogie-blues “Cante, Dance, Faça!” tem guitarras em destaque e novamente faz uma veneração à arte de criar (e de amar) em tempos de pandemia e de pandemônios: “Cante/ que a melodia cura/ se você cantar”.

A bucólica balada “Um Baita Amor Companheiro (Barco Astral)” fecha o disco é a única canção feita em colaboração, assinada em companhia de Katherina Tsirakis. 

Tupiniquin está na estrada desde 2007, quando retornou de uma longa estada nos Estados Unidos. Por essa época, lançou seu primeiro álbum, “Made In São Paulo”, editado na Europa inclusive. 

Neste “Canções Pro Fim do Mundo”, em cuja capa o próprio artista afunda na água sem resistência, na posse de seu violão, Tupiniquin propõe, ainda que acanhado, a valorização da criação ante a ausência de sentido das coisas, outro sentimento pandêmico e potencialmente fatal se não interrompido.

“Canções Pro Fim do Mundo” é o álbum que você ouve na segunda-feira, no Programa Na Ponta da Agulha, apresentado por Jorge Lz.

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Escrito por Janaina Fellini e Cristiano Castilho

Tempo sem Tempo – Joana Queiroz

Este texto, quando escrito pela primeira vez, disse algo. Mas insistiu em agarrar-se à palavra exausta, na tentativa de coexistir. No seu segundo assentamento, disse mais, porque antes se apagou em luzes e subtraiu da escuridão o acender-se em palavra descansada, saudosa que estava de se madrugar.

Deitar no silêncio, imagino, deve ser o descanso da palavra. Quando exausta, ela escapa do mundo e, já na fenda do caminho, vai pendurando letra por letra, até tornar-se a própria aquietação, estando ao mesmo tempo, palavra e silêncio – ou palavra em silêncio.

No sonho vocabular, ir e voltar do som à quietude deveria ser como o ir e o voltar do dia para a noite. Simples, contínuo e natural. No entanto, quando a palavra se isenta da obrigação de significar, desesperada pelo encontro com a sua própria aporia e reivindicando seu direito de não lugar, são muitas as guaritas, vigilâncias, ralos, vãos, gritarias, protestos e colonizadores desenfreados na busca por preencher o espaço acordado como obrigatório do palavrear.

A saga da palavra não dita, também é a cortesia de acesso a infinitas pronúncias nascidas a partir do ato de não narrar. É no descanso do verbo de uma canção, por exemplo, que um instrumento musical toma para si o direito à solidão luminosa e a permissão para solar. Também é na ausência de vocábulo que uma narrativa torna-se livre, construindo moradas com refinados recursos de dissociação seguida de ressignificação – muitas vezes de distração – nos ouvidos por onde passa.

“Tempo sem Tempo” é o novo álbum da clarinetista, saxofonista, cantora e compositora Joana Queiroz. A canção que dá título ao trabalho, providencial, é uma releitura da composição de José Miguel Wisnik e Jorge Mautner. Clássicos como “Jóia”, de Caetano Veloso e “Seu Olhar” de Gilberto Gil, ganham texturas, suspensões, descansos, enquanto “Dois Litorais”, assinada por Mariá Portugal, diz desse prolongamento da palavra horizontalizada com o som instrumental. Alternando narrativas verbais e instrumentais desobrigadas da ocupação de seus lugares como principais ou coadjuvantes, a partida da palavra se alinha nas histórias contadas pelo movimento continuado do clarinete e complementadas pelas percussões, efeitos e recursos herdados da escola estrutural de Joana, a Itiberê Orquestra Família, junto com o seu trabalho recente no grupo QuartaBê. “Tempo sem Tempo” vai do jazz ao samba por caminhos inexatos, liquefeitos como nosso próprio tempo. O álbum foi lançado pelo selo YB e tem produção de Bruno Qual, irmão mais velho da artista. Participam também Sergio Krakowski, Domenico Lancellotti e Mariá Portugal.

Na atmosfera instrumental, aquífera e orgânica do disco, “O Barco” é quem navega em prolongamento fluido, como nas histórias de Amyr Klink. Na faixa “Memórias”, escorrem notas repetidas e incontidas, tanto quanto é o percurso do que é lembrado no sistema límbico – que também é o responsável pela linguagem – até o coração consciente.

Para conter palavra e, ao mesmo tempo, livrá-la da obrigação de dizer sozinha, “Tempo sem Tempo” oferece ao seu ouvinte a possibilidade de ser encontrado pelo verbo dito e não dito no ato ampliado e liberto de ouvir, descansar, silenciar, navegar, prolongar-se.

“Tempo sem Tempo” é o álbum que você ouve na segunda-feira, no Programa Na Ponta da Agulha, apresentado por Jorge Lz.

Feito à Mão é uma parceria da Musicoteca com o Programa Na Ponta da Agulha.

Escrito por Janaina Fellini e Cristiano Castilho.

Silvia Machete – Rhonda

Pegou o casaco vermelho, vivo aos seus olhos. O vestiu, puxou a porta de correr, e já não tinha como escapar. À sua frente, o espelho. Conferiu a maquiagem, notou mais uma vez um único fio de cílio curvado em direção ao céu, que não descia igual a todos os outros, como um arco para o chão. E isso de um único cílio revirado no canto do olho esquerdo, pensou, seria também um desvio comum a outros olhos?

Girou o corpo para ajustar-se à saída, e relembrou o médico explicando:

– Seu quadril faz uma rotação inversa que compensa a tensão do lado direito do corpo. Um lado equilibra o outro, fazendo ajustes até alinhar.

Já do lado de fora, ajeitou a ponta do tapete vermelho e saiu.

Mergulhou na noite sozinha e a contragosto, desembarcando no bar e encostando a fina pele dos seus braços, um em cada canto da cadeira fria. Teve vontade de fumar. Mas não a suficiente para alcançar algum cigarro guardado nos bolsos de outras pessoas que dividiam aquele mesmo espaço com ela – mas que dela mesma nada sabiam. Parecia “Meia-Noite em Paris”, parecia um conto de Clarice Lispector, parecia uma noite sem propósito no abismo sem fim.

Entre um pequeno movimento e outro, no ato de levantar um copo e os olhos, girar à direita ou à esquerda, alinhar alguma trajetória compensada em seu corpo, tinha certeza de que parecia, ao olhar alheio, uma pessoa normal: mais uma mulher de casaco e batom vermelhos, cabelos presos e olhar difuso, em busca de uma noite para abastecer-se de histórias ao acaso.

Porém, era no profundo de suas fáscias que sentia o desacompanhar de si mesma infiel à própria ideia de acompanhar-se, pela primeira vez, na noite após o fim, e na sequência, saber-se capaz de recuperar a intensidade do elo perdido.

Imaginou dançar, imaginou rir alto, sentir o cheiro da fumaça da rua, encantar-se por alguma esquina e flertar com algum desconhecido. Mas agora ali, entre tantos encaixes, rangiam sobre seus pensamentos somente lembranças de velhas portas que deveriam estar fechadas para sempre. O fim do amor é como um dia que chegou adiante e nunca no tempo certo, do jeito bom. O fim, definitivamente, não é um ajuste compensatório em busca de equilíbrio.

Com os dois pés sobre o tapete, revirou a chave na porta de casa. Tirou o casaco vermelho, largou as chaves sobre a mesa. Suspirou. Deitada com os olhos abertos, com um único cílio arrepiado e um quadril em rotação, encostou a fina pele dos seus braços, um em cada canto do seu próprio corpo. Como se fosse possível levar a noite adiante, a vida adiante, para o próximo amor.

“Ronda” é um samba-canção de Paulo Vanzolini lançado em 1953 por Inezita Barroso. Durante anos, e principalmente depois da versão de Nelson Gonçalves, povoou o imaginário dos boêmios com dor de cotovelo, já que narra, a partir de alguém extremamente apaixonado e ao mesmo tempo desiludido, uma corrida noturna desesperada em busca do amor fugidio.

“Rhonda” é o quarto álbum autoral da cantora e compositora Silvia Machete. Com dez músicas autorais em inglês e uma regravação de “With No One Else Around”, de Tim Maia, é um disco para se ouvir atravessando o corredor entre um amor perdido, e o próximo dia adiante.

A ambientação acústica e intimista faz de “Rhonda” um dos discos mais sensíveis deste 2020 – ano que nos esmaga a cada dia por parecer infinito e sem perspectivas. As canções nasceram a partir de um tema comum a todos os que estão vivos: o fim da paixão. Por isso, “Rhonda”, mesmo em inglês, cativa quem precisa de uma mão para seguir adiante neste caminho tortuoso que nos foi oferecido.

Fluida e cativante, a vibe do álbum muito deve à bateria de Vitor Cabral, ao baixo de Alberto Continentino, aos teclados de Eduardo Lima e à guitarra de João Erbetta. Silvia e Continentino assinam a maioria das composições. E há, também, duas parcerias dela com o músico Emerson Villani, e uma com o norte-americano Nick Jones – escritor das séries ”Orange is The New Black” e ”Glow”.

Vale a pena citar a participação do tecladista e amigo de Nova York Jason Lindner, um dos responsáveis pela sonoridade do aclamado disco ”Blackstar”, último álbum de David Bowie, lançado em 2016.

Com uma rica paleta de vertentes e influências, “Rhonda” transita entre um soul rasgado e elétrico (“Cactus”), passa por um funk ornamentado  (“One of the Kids You Know”) e chega em um jazz-latin-rock dos mais incrementados, caso de “Messy Eater”.

Silvia Machete faz música sobre aquilo que já não é, sobre aquilo que morou no coração de alguém por um tempo, e hoje voa a espera de outro pouso.

Rhonda é o álbum que você ouve na segunda-feira, no Programa Na Ponta da Agulha, apresentado por Jorge Lz.

Feito à Mão é uma parceria da Musicoteca com o Programa Na Ponta da Agulha.

Escrito por Janaina Fellini e Cristiano Castilho.

Mente – Thiago Nassif

Se o quarto álbum da carreira do músico, engenheiro de som e produtor Thiago Nassif fosse uma cidade brasileira do presente, seria São Paulo. Com imensas camadas polirrítmicas, tecnologia da gringa, bossa, samba, funk, no wave, vozes suaves, coros atravessados, caos nos arredores e organização no núcleo repetidor da base, ouvi-lo é como caminhar pela Paulista.

Para viver a experiência de “Mente”, é recomendável um grau de estesia, um corpo capaz de se movimentar, um ouvido multidisciplinar, um organismo presente e ativo que metabolize rapidamente muitas referências, antes que a próxima faixa nos transporte a mais um grau de sensações intensas.

Se o quarto álbum do artista visual, cantor e compositor Thiago Nassif fosse uma cidade brasileira do futuro, seria uma ecovila com casas sustentáveis. Dessas construídas com calma, em harmonia com a natureza, revestidas de poesia lenta e solar. Planejado durante quatro anos, o próprio artista compara seu trabalho a uma construção arquitetônica, na qual primeiro estruturou a base, e depois chamou outros profissionais para preencher os espaços desenhados para “Mente”. Um longo tempo de experimentações e criações de paisagens desaceleradas, bem longe do passeio pela Paulista, bem perto da poesia solar.

Nesta outra camada do mesmo álbum, é preciso um ouvido desconstruído, uma estética fluida, abissal, crua. No encontro da camada mais sutil, “Cor” desestrutura palavra e poesia em queda livre no abismo entre o cosmopolita e o cru. “Feral Fox” traz Jimi Hendrix como personagem. “Voz Única, Foto sem Calcinha”, uma bossa atemporal e quase doce, tem participação de Ana Frango Elétrico, mas não se engane: é só uma cama macia para uma letra de voo rasante. A produção é do norte-americano Arto Lindsay, e isso faz muito sentido. O veterano músico e produtor passou a juventude em Garanhuns (PE) e acompanhou de muito perto o sacolejo que o movimento tropicalista deu na música (brasileira também), nos anos 70. Ele participa de algumas das dez faixas do disco, que tem músicas em português e em inglês, temas poéticos e caóticos, pós-realidade, política, e provocações contemporâneas. A pluralidade de “Mente” também se mostra nas participações, que elencam a já citada Ana Frango Elétrico e sua pós-Nova MPB, Vinicius Cantuária, Ricardo Dias Gomes, Jonas Sá, Donatinho, Pedro Sá, Vitor Araújo e Bruno di Lullo.

Este é um álbum de paisagens plurais, arquiteturas diversas, estranhezas e ousadias. Um som além do que se ouve, criado por uma mente em movimento. “Mente” é um álbum-espéculo do futuro e um dos mais bem produzidos trabalhos de 2020.

“Mente” marca a centésima edição do programa Na Ponta da Agulha, também de ousadia futurista, de arquitetura sonora em desconstrução, assinada pelo produtor e curador Jorge Lz, a quem desejamos, pelo menos, mais 100 anos de bons sons e aventuras musicais.

Feito à Mão é uma parceria da Musicoteca com o Programa Na Ponta da Agulha.

Escrito por Janaina Fellini e Cristiano Castilho.

Fronteiriça – Roseane Santos

La Loba é a personagem que dá nome ao primeiro conto do livro “Mulheres que Correm com os Lobos”, da poeta e psicóloga norte-americana Clarissa Pinkola Estés. Ela, La Loba,  também é conhecida como A Mulher dos Ossos, a Trapeira ou ainda a Mulher Lobo, e tem um único trabalho: caminhar em busca de ossos que são recolhidos e guardados em sua caverna. Quando, depois de algum tempo – desses que não tem medida em dias, meses ou anos – a cata rende a junção de um esqueleto inteiro, La Loba senta-se perto do fogo. E sabe o que ela faz? Canta. 

Quando ouvi Roseane Santos pela primeira vez – ou Rose, como a chamamos aqui em Curitiba – contando sobre os registros que fez em cadernos ao longo dos anos, cadernos que permaneceram fechados até o momento em que ela se sentiu pronta para abri-los e mostrar seus escritos a outras pessoas, imediatamente pensei em La Loba. Na ocasião, Rose ocupava o centro de um grande palco rodeado por uma arena em uma tarde de calor insuportável. Eu estava à direita, recém-saída de um show desgostoso: desses em que o click encobre o retorno, alguém esquece a letra, a nota escapa pela tangente e a plateia parece absolutamente distante; e observava Rose ali, no centro do palco, com toda a sua grandeza. Dava para sentir no ar que algo significativo pulsaria e levaria à música independente um brio acentuado. Ao seu lado estava Luciano Faccini, um dos produtores do seu futuro álbum, e um dos responsáveis por ler nos cadernos agora abertos de Rose a poesia que se transformaria em música em no seu primeiro disco solo em 18 anos de carreira: “Fronteiriça”. 

Então, depois de um pequeno discurso de agradecimento, Rose cantou a capella um trecho de uma música, e disse que a composição se abriu do seu caderno no mesmo momento em que ela percebeu que não precisaria mais carregar algumas dores do passado. Rose estava pronta para ser uma mulher do tempo de agora. Mesmo sem ter certeza de qual foi a canção cantada ali, ainda sinto nas entranhas aquela melodia dançando perto do fogo, como uma ideia subjacente, um vir a ser já reverberado em sua potência. Era o final do ano de 2018.

Agora, quem tem a boa sorte de ouvir o álbum “Fronteiriça”, e cartografar a multiplicidade de territórios que ele propõe em 11 faixas, pode retirar das prateleiras longitudinais do tempo um atlas sensível da música que Roseane Santos, gentil, corajosa e coletivamente, traçou. 

A voz é única, a interpretação é única. Algum humor poético também preenche a estrada, e as muitas delicadezas são paisagens corriqueiras, distribuídas na geografia fronteiriça. As composições reúnem escritos da artista e parcerias com pessoas próximas como Luciano Faccini, Leonarda Glück, Ary Giordani, Francisco Mallmann, Bia Figueiredo e Ana Modesto. A produção musical foi feita em parceria com Leonardo Gumiero e Luciano Faccini. A arte é de Thalita Sejanes sobre fotografia de Pretícia Jerônimo e a produção executiva é de Moira Albuquerque. O trabalho conta ainda com André Garcia no violão, guitarra e arranjos-base, Gabriela Bruel na percussão, Daniel D’Alessandro na bateria, Victoria Vilandez no contrabaixo e Luciano Faccini no clarinete, violão, efeitos, ambientações, direção artística, junto com a própria Rose.

Entre a esperança de um acaso impossível na faixa “Pedras e Escritos”, um mecanismo imaginário de respiração metafórica no sufoco dos dias atuais em “Guelras”, personagens mágicos ou místicos como a sereia, ou mulher bruxa na “Valsa da Lua”, pequenas crônicas como “Pastel na Praça” ou “Lábia” aproximam a artista e suas parcerias da vida normal, rotineira, cotidiana. Quem segue o percurso pela estrada de “Fronteiriça” alcança o primeiro platô: a “Pequena Ladainha de Cura”. Toma mais um fôlego e desaba no colo forte e poroso de “Ancestralidade” – e daí para um descanso. 

La Loba, à medida que canta para os ossos recolhidos de um esqueleto completo ao redor do fogo, vai reconstituindo a carne, as vísceras, a pele do animal. E se ela canta mais um pouco, o sangue começa a correr, e ele começa a respirar. Com mais um entoo, a vida ressurge e é capaz de habitar mais uma vez esse ser, que ao correr em disparada por estradas e vales, vai se transformando novamente em pessoa humana. Nesse caso, uma mulher. A caverna é o útero, que é e sempre será o gerador da vida. Os ossos são as histórias boas e ruins, que deixamos na cartografia do nosso mapa pessoal, ao longo do tempo. La Loba é a consciência, que se recupera quando resgatamos a nós mesmos e elaboramos nossas histórias reconstruídas em versos que aí, cada um e cada uma, vai compor, repor, escrever, guardar ou cantar. E correr em disparada na direção de novas fronteiras. Como Roseane Santos fez ao voltar para recolher seus ossos, juntar os melhores versos do caminho, reconstruir sua narrativa, reunir em sua caverna, ao redor do fogo aceso por suas próprias mãos, seus apoios pessoais e musicais, e assinar seu trabalho como compositora. Com o canto de Rose, “Fronteiriça” ganha vida. E vai correr pelo seu mundo até tornar-se o que for depois do vir a ser.

Fico pensando ainda: quantas cantoras guardam por aí seus cadernos fechados e que tamanho tem a prateleira longitudinal da validação vinda de um observador de fora? Qual é o tamanho necessário para a subida dos próprios pés à ponta, suficientes para alcançar a melodia do dizer dos ossos catados na fronteira das histórias da vida? Nesta subida, esses pés podem encontrar, ainda, apoio? Podem ir até olhos que leem além? Podem pulsar em corações generosos que andam a cata de versos, com a força de cantar sobre eles, e assim torná-los à vida como semente e terra, renascidas sempre e mais uma vez? 

Fronteiriça é o álbum que você ouve na segunda-feira, no Programa Na Ponta da Agulha, apresentado por Jorge Lz.

Feito à Mão é uma parceria da Musicoteca com o Programa Na Ponta da Agulha.

Escrito por Janaina Fellini e Cristiano Castilho.

Delírios Líricos – Tatá Aeroplano

Ao ouvir “Delírios Líricos”, feche os olhos. Coloque uma roupa brilhante, adereços exagerados, algo fora do comum. Dance com gestos que não faria em público. Celebre e chore em casa, ao acessar uma ponta de lembrança dos seus planos para o ano de 2020, agora em meio a esta solidão, ao isolamento. Perceba os arranjos, as guitarras contemporâneas, um tanto deslocadas, como todos nós. O novo disco de Tatá Aeroplano é um convite que chama para já, enquanto te leva para algum lugar do passado. Algo que já foi ouvido, que já foi dito na pronúncia de outras palavras, pois já convivemos com outras alucinações, de Mutantes a Belchior, de Jards Macalé a Novos Baianos, de Raul Seixas a Tim Maia. É um duvidoso déjà vu. Mas é um delírio atual.

Ainda de olhos fechados, imagine que o Brasil está sob um contexto social e político lastimável. Que a morte nos ronda, aleatoriamente. Que faltam articulação e liderança, confiança e decisões assertivas na política e na economia. Imagine também que os artistas, diante deste contorno absurdo e improvável, estão produzindo algo que dá conta deste cenário em estéticas variadas: melancólicas, tristes, eufóricas, otimistas, raivosas, pessimistas, sonhadoras e futuristas.

Você está em 2020, ou em 1967? Ouve Tatá Aeroplano – aqui como um representante da produção contemporânea brasileira – ou os tropicalistas, com suas guitarras desesperadas por redescobrir o Brasil e seus valores genuínos, por desenhar a dignidade de seu povo, que à época, vivia as consequências do Golpe de 64? O mesmo povo, que deslocado para hoje, vive às voltas com paradoxos delirantes, como discutir a possibilidade de morar em um planeta plano, de usar a cloroquina como panaceia em meio a uma pandemia, de assistir perplexo e paralisado, o genocídio dos povos originários, de receber o convite diário a um tipo de ilusão articulada com requintes de marketing perversos massivos e impiedosos, diante de uma população que parece não ter em si, ainda, a dimensão de sua potência. Ainda cabe um pouco de poesia?

Assuntos como política, religião, amor, cultura e muita poesia são distribuídos em cada uma das 9 faixas do álbum “Delírios Líricos”. Este é o sexto trabalho solo da carreira de Tatá Aeroplano, que contabiliza 18 anos de carreira e projetos muito originais no currículo, como o Cérebro Eletrônico. O novo álbum tem participações de Bárbara Eugênia, Biba Graeff e Malu Maria. A produção foi coletiva, em parceria com Dustan Gallas, Junior Boca, Bruno Buarque e Lenis Rino.

Entre as faixas estão criações novas e antigas. “Trinta Anos Essa Noite” foi escrita no início dos anos 2000, e as guitarras empoeiradas presentes na música evocam medos sinceros e momentos de autoconformismo – sentimentos que voltamos a descobrir ou aperfeiçoamos em tempos recentes.

“Ressureições”, originalmente de Jorge Mautner e Nelson Jacobina, ganha nova roupagem com Tatá, e dá frescor ao disco – fincado num devaneio recorrente. Já “Cabeças Cortadas” é um delírio lírico em que vozes se encontram para definir alguma coisa antes liquefeita. A linda “O Silêncio das Serpentes” fecha álbum com um toque cênico, quase extravagante, um grito calculado.

Agora, abra os olhos. Espero que você esteja dentro da sua casa, chegando ao fim dessa viagem musicada, em que a poesia de Tatá Aeroplano nos salva da sensação delirante de não sabermos mais onde está a realidade e qual é exatamente o tempo cronológico dos eventos diários no Brasil.

Vivemos um delírio – lírico – constante que precisa como nunca da arte à frente dos movimentos que agora fervem dentro de quatro paredes, e que irão surgir sem demora, tão logo o sonho contemporâneo coletivo dê conta do delírio político-massivo e surja como força de produção, de regeneração, de alegria. Talvez já nos tenham usurpado a utopia. Mas nunca o delírio. 

Feito à Mão é uma parceria da Musicoteca com o Programa Na Ponta da Agulha de Jorge LZ. Escrito por Janaina Fellini e Cristiano Castilho.

Ser TAO – O Caminho. André Balboni e Quadril Quarteto de cordas

Coluna de Janaina Fellini inspirada na audição do podcast “Na Ponta da Agulha, de Jorge LZ, edição: André Balboni” com colaboração na escrita de Cristiano Castilho. O podcast inspirador você pode ouvir abaixo:

A última viagem que fiz antes do isolamento social foi em fevereiro, para visitar as cavernas do PETAR – Parque Estadual Turístico do Alto da Ribeira. Acampamos no Moriá, camping do seu Maurício e família, com quem passamos longas horas aprendendo sobre a simplicidade da vida e sobre agir em coerência com a natureza em nossa breve passagem por esse mundo. Foi um tempo em que a sabedoria verteu dos olhos daquela gente. E dos nossos, pouco sábios, porém não menos encantados.

Nosso guia, o Seu Milton, era um senhor de pouca prosa. No primeiro dia, já desgostamos porque não nos contou as datas, nem a história, nem o contexto precedente das cavernas. Não sugeria os melhores ângulos para fotos, nem nada do que os outros guias supostamente deveriam fazer. Mesmo assim, seguimos para o dia seguinte, e o seguinte, e quanto mais tempo ao lado do silêncio do Seu Milton, e de todos os pequenos cuidados dele com o grupo (estávamos com um pequeno aventureiro de 7 anos), mais aprendíamos sobre a simplicidade. Sobre sentir e não raciocinar. Sobre encantamentos silenciosos e cavernas meditativas.

Um dia, depois de caminharmos pela caverna Santana, famosa por suas instalações percussivas, cantarolando melodias imaginárias e inventando ritmos sem compasso, Seu Milton soltou o verbo:

– Nesta caverna aqui, Hermeto Pascoal gravou com seus músicos. Ele visitou o parque, organizou tudo, instalou equipamentos…

Foi o nascimento da Sinfonia do Alto da Ribeira, em 2012. Uma composição do mago Hermeto Pascoal em parceria com a natureza. Um olhar junto e através, uma proposta de extensão de caminhos e percursos musicais em que o contexto é tão parte da composição quanto cada nota criada por seu compositor e tocada por seus intérpretes.

No mesmo ano, o músico Jarbas Agnelli foi inspirado por uma foto na qual pássaros descansavam e sem querer desenharam uma melodia na pauta dos fios elétricos. A imagem foi registrada pelo jornalista Paulo Pinto, do jornal O Estado de S. Paulo. A composição “Birds on the Wires” nasceu dessa leitura poético-musical sobre a natureza e suas nuances silenciosas de comunicação, no diálogo com o ambiente ao qual pertencem. A canção viralizou, tanto pela sua história quanto pela sua beleza musical.

“Ser Tao”, novo disco do instrumentista, compositor e terapeuta André Balboni, é uma obra instrumental inspirada pelo livro “Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa”. São 10 faixas interpretadas por André Baldoni na companhia do Quadril Quarteto de Cordas, formado por quatro instrumentistas mulheres – Alice Bevilaqua e Mica Marcondes (violinos), Elisa Monteiro (viola) e Vana Bock (violoncelo). 

“Ser Tao” desenha em sua pauta, provavelmente não desavisada, um caminho sofisticado que soa simples para quem ouve. Um instrumental que poderia estar escrito na pauta desenhada por pássaros ou brotar de melodias imaginárias no interior de cavernas.

Talvez o álbum seja uma homenagem involuntária a Moraes Moreira, que morreu em abril deste ano. Em 2018, o eterno novo baiano lançou o disco “Ser Tão”, em que navega pelas veredas do cordel. A diferença é que a sonoridade de André, mais profunda, é não verbal– ao contrário do álbum de Moraes, inspirado pela literatura de cordel. André é guiado pela tradição inovadora de Heitor Villa-Lobos, que deu cara e corpo à música folclórica brasileira. Assim, “tão” ganhou novas cores e interpretações.

TAO é uma palavra traduzida do ideograma chinês, para descrever “caminho”. E nesse caminho, a relação entre o homem e a natureza, o homem e sua comunidade, o eu e o outro, a parte e o todo. Assim como em “Grande Sertão Veredas”, Guimarães Rosa descreve as narrativas inventadas no cotidiano inquieto, filosófico, complexo e ao mesmo tempo, muito simples de seus personagens.  

Como a imagem da lua exatamente como a enxergamos (ou nos enxergamos) no céu, quando o ciclo alcança a metade do tempo no quarto minguante, ou a metade do tempo no quarto crescente: metade luz, metade sombra. Céu e terra, começo, fim e continuidade. O TAO. “Ser Tao” é uma boa companhia para o caminho de quem está há 5 meses na caverna de casa, inventando seus sertões, observando a lua, desenhando pautas despretensiosas, sentindo saudades de voar sem medo pelos ambientes aos quais pertence.

Velas ao vento

Coluna de Janaina Fellini inspirada na audição do podcast “Na Ponta da Agulha, de Jorge LZ, edição: Du Gomide” com colaboração na escrita com Cristiano Castilho. Um texto feito à duas mãos. O podcast inspirado você pode ouvir abaixo:

Noite passada tive um sonho: em frente a um cemitério, vi uma planta morrer. Molhei a terra onde estavam raízes quase secas daquela espécie desconhecida, e imediatamente um caule verde e delicado se levantou. Flores finas e brancas se abriram. Os frutos, algo entre amora e morangos, nasceram saudáveis e impecáveis. As imagens vivas e a agradável sensação de presenciar uma vida renascendo, gerou em mim, brevemente, a vontade de permanecer ali mesmo, naquele corredor onírico que vislumbra um final feliz.

Em 1578, o filósofo, teólogo e astrônomo Giordano Bruno teve um sonho: ele despertava no interior de uma esfera com estrelas, confinado. Foi até a extremidade da esfera, e tocou as estrelas. Sentiu um certo apavoramento. Em seguida, foi tomado por uma manifestação de coragem. Saiu da esfera, voou cada vez mais alto, subiu, subiu e, deparando-se com a sensação de que não havia limites nem acima, nem abaixo ou ao redor, ele pôde ver, sentir e experimentar o universo infinito. Como um observador, viu o sol e mais estrelas. Visitou galáxias e entendeu que existiam outros sistemas além do que se aceitava como verdade à época. Por defender ideias como esta, que lhe foi apresentada num sonho, Giordano Bruno foi queimado vivo pela Igreja. Isso aconteceu 10 anos antes de Galileu provar que sua visão sobre o mundo, baseada na experiência de um sonho e de várias outras hipóteses levantadas por pesquisadores anteriormente, como Copérnico, estava certa. A Terra não é o centro do universo. E nem os astros giram ao nosso redor.

Os povos indígenas valorizam o sonho e levam em consideração seu conteúdo em suas decisões cotidianas. De acordo com Kaká Werá, escritor e ambientalista brasileiro de origem tapuia, o sonho é um lugar onde se obtém conhecimento e informação. Esses recados vêm de seres que, no mundo físico, não são reconhecidos como capazes de se comunicar conosco – plantas, animais, rochas. O sonho regido pelo reino vegetal torna-se, nesse universo abstrato, um portal de comunicação dos reinos da natureza com a nossa alma, com o inconsciente individual e coletivo. O espírito da noite e da escuridão rege os elementos da terra, da água, do ar e do fogo, que trabalham na fronteira entre o sono e o sonho, liberando nossos processos psíquicos, emoções, preocupações, ansiedades e acontecimentos do nosso cotidiano, restaurando e nutrindo nosso organismo para a retomada da vida no dia seguinte. Alimentos como a mandioca e o guaraná foram sonhados pelos antigos tupis, antes de serem consumidos. Alguns remédios que estão presentes na cultura indígena também foram sonhados. Os Xavantes, antes de aceitarem a visita dos irmãos Villas-Bôas, sonharam que já era o tempo de receber algumas presenças que estariam preparadas para acessar o conhecimento do povo indígena. Nas culturas que preservam a sabedoria ancestral, não sonhar sinaliza uma desconexão interna e com a natureza. A personalidade e a essência da alma estariam em desencontro. Sonhar é sinal de consciência e o sonho é para ser cuidado, conhecido e desvendado.

Sidarta Ribeiro é um neurobiólogo brasileiro, diretor do Instituto do Cérebro, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Sua pesquisa traz o sonho sob a perspectiva ampliada de que sonhar é um fenômeno tão complexo, que se torna impossível explicá-lo por meio de um único paradigma. No seu livro “O Oráculo da Noite: a História e a Ciência do Sonho”, Sidarta reúne uma narrativa que atravessa o tempo e os níveis de organização da matéria, sociedades e culturas. A tese é de que o conjunto de múltiplos saberes agregados ao longo dos últimos 300 mil anos formam uma base que valide todo esse conhecimento interdisciplinar, como partes uns dos outros. Uma espécie de nuvem de sonhos e sonhadores onde toda a sabedoria é validada e acolhida, de acordo com as suas diretrizes no caso da ciência, ou das tradições, no caso da sabedoria indígena, ou ainda arquetípica para algumas linhas da psicologia. Neurociência, biologia, antropologia, psicologia, espiritualidade e ancestralidade tornam-se complementares nesta perspectiva, e sinalizam para a importância de reintegrar os sonhos ao nosso cotidiano, como uma ferramenta oracular de criação do futuro e da própria realidade.

Ao longo do tempo, a civilização ocidental capitalista se fundou na realidade e abandonou o sonho. O ato de narrar sonhos ao redor de uma fogueira, de compartilhar o conteúdo desse universo paralelo e atribuir a ele a função de promover novas perspectivas em comunidade acompanhou, segundo Sidarta Ribeiro, mais de um bilhão de noites da humanidade. Mas hoje se tornou um farol abandonado.

Quando ouvi o novo trabalho do músico, compositor e produtor Du Gomide, o álbum “Vela Acesa”, me perguntei se, ao propor uma travessia onírica, mística, profética, espiritual, reflexiva, otimista e dançante, Du teria, de alguma forma, atravessado os níveis de organização da matéria, e assim, acessado nesse espaço onírico o material para tornar possíveis as perspectivas e histórias narradas nas 8 faixas do disco. Sem dúvida, é para ser ouvido na quarentena. Uma vela acesa, um farol reativado para repensar a sociedade, as escolhas coletivas e individuais, para incluir alguma prática espiritual ou de conexão na rotina. Para amar e romantizar um pouco. Afinal, merecemos algum descanso mesmo que sob o conforto da ilusão, e, sobretudo, para deixar chegar algum sorriso livre, pelo simples fato de ouvir uma música e por ela ser levado a um estado de sonho ou de suspensão da realidade.

Este é o segundo disco solo de Du, músico muito requisitado por estas bandas. Em relação ao primeiro, “All In”, de 2014, este trabalho é mais abrasileirado, sedutor e profundo. O processo onírico proposto por Du Gomide começa com a sugestiva “Altar Nativo”, precedida por sons de pássaros. É uma reza moderna e naturalista. A faixa-título esbanja suingue e mostra o melhor da voz leniente de Du, que arma seu altar em definitivo e nos convida a dançar no escuro – ouça a mata chamando. “Cai Rei, Cai Rainha” é o futuro visto pela luneta do sonho. “Nos mantemos de pé”, canta ele. “O hoje é só o que temos e não vamos temer o futuro/que por mais que esteja escuro/ tem muita estrada pela frente”.

Com participações de Bernardo Bravo, Tuyo, Bianca Rocha e Iana Rocha, vozes sonhadoras, refrões poéticos e melodias sinestésicas, “Vela Acesa” estende sua ponte para possibilitar uma travessia mais leve, nestes tempos suspensos e inéditos, em que a realidade alguns dias parece sonho, e em vários outros, pesadelo. Se o cérebro reverbera informações e memórias do passado para simular o nosso futuro, pegue sua melhor roupa de sonhar, escolha um lugar gostoso, incenso, vela, cobertor – se você estiver em Curitiba – e ouça. Aliás, o que você tem sonhado nesta quarentena?

Aliás, o que você tem sonhado nesta quarentena?

Coluna de: Janaina Fellini
Colaboração na escrita e autoria: Cristiano Castilho
Colaboração de conteúdo: Jorge LZ
Foto: Cisco Vasques