Ikê Maré – Julico

Guitarrista e vocalista da banda sergipana de rock The Baggios, que já ecoou duas vezes seu nome entre os indicados do Grammy Latino, Julico desce agora na ribeira do seu primeiro trabalho autoral. Ele é natural do povoado de São Cristóvão, vizinha da capital Aracaju, uma região plana e rodeada por águas doces dos rios, por terminais de águas de sal em seu curso vindo do oceano Atlântico e por povoados guardiões da cultura e dos saberes do mar e do sertão.

A geografia é um bom ponto de partida para mapear a escuta, e, sobretudo para deixar-se levar – como uma gota no oceano – pelas 13 faixas afluentes de uma construção que percorre e é percorrida do frescor gotejado à inundação, de maré cheia entre ressacas, de nado livre até a gota de suor seco e espanado, sedento por abrigar seus fluidos em novos cursos. Se com a The Baggios o rock e a poeira estradeira contornavam as canções, agora a sonoridade mergulha em águas mais coloridas da psicodelia brasileira – talvez não à toda revisitada por esses dias incapazes.

O Olho d´água nascente parte de “Ikê Maré”, música que dá nome ao álbum, e é uma expressão descida com as águas e desembocada para dizer o que é da ordem do indizível. Uma tentativa de traduzir sensações sem vocábulo suficiente nos dicionários da humanidade, para dar conta de subjetividades como o tempo e o amor. Ainda diretamente com as águas, os rios evocados Paramopama e Vaza-Barris, banham as citadas São Cristóvão, Caípe Novo, Caípe Velho e é este o corpo autoral fresco no qual Julico parece estar e ser em cada um dos nomes, lugares, fluidos, ladeiras, mangues citados nas suas composições. Cada faixa é como uma minibiografia contando histórias, levantando questões, aspirando clarezas. Artista e obra se constituem um único plano geográfico, um mesmo percurso de água no doce ou no sal.

“Ikê Maré” foi produzido pelo próprio Julico, com mixagem e masterização de Leo Airplane, bateria por Ravy Bezerra e participações de André Lima (trompete), Diogo Rocha (saxofone), Rafael Ramos (teclas), Leo Airplane (teclas) e Meire Andrade e Ellen Andrade (coro). Na faixa “Todo Dia é Santo”, Curumin divide o vocal com Julico. Em “Paramopama / Vaza-Barris” a voz do mergulho é de Winnie, e em “São Cristóvão Via Niger”, a longa viagem vem acompanhada pela cantora Sandy Ale. Para traduzir em música tantas sensações indizíveis, psicodelia, funk, samba, maracatu, referências claras aos anos 70 e toda sua influência e afluência. Uma viagem fresca e árida, geográfica e existencial. Por espanto, grandiosidade, saudação, reverência ou concordância, seja lá o que for, IKê Maré!

Feito à Mão é uma parceria da Musicoteca com o Programa Na Ponta da Agulha. Escrito por Janaina Fellini e Cristiano Castilho.

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