Little Electric Chicken Heart – Ana Frango Elétrico

Quando a última chuvinha ressentida cobriu brevemente o céu e, sem vontade, o chão de água, pelo elevado do solo subiu o cheiro petricor, que é o nome poético do aroma da chuva, como índigo para a cor azul. Petricor, ao terminar de subir seu trajeto até o elevado do ar, alcançou as narinas das pessoas atrás das máscaras e, com vontade, interrompeu inúmeros movimentos apenas para ouvir as exclamações suspiradas no cheiro bom da chuva: que delícia! Saudade de inverno úmido, de água à vontade e banho sem tamanho pré-definido. Aqui no Paraná, estamos atravessando a maior seca dos últimos 30 anos.

Atrás da máscara e junto com a saudade, encolhe-se o formato adaptado dos nossos rostos, guardando à memória o próprio tempo que nos foi contido. Lá se vão mais de 180 dias de isolamento confuso e de pandemia certeira. Quem é da arte lamenta o desapego pelos inúmeros projetos cancelados, reformulados, adaptados para a vida on-line. Quem é do mundo, também. E quem é do mundo e aprecia a arte sabe a falta insubstituível que a presença faz.  A saudade não só nos alcança como joga no colo de todos os dias infinitos, a lembrança de que não sabemos quando será possível trocar com o público ou com o artista, aplaudir e ser aplaudido nos palcos e pelos corpos, ambos sobreviventes da pandemia. Tempos de peste, éons de secura e contenção de alma.

“Saudade” é o nome da primeira faixa do álbum Little Electric Chicken Heart, da carioca Ana Frango Elétrico. O coração se diz pequeno, mas tem compartimentos suficientes para abrigar bossa, samba, guitarras, sopros, uma dose de tropicália, letras surreais tanto ou mais quanto cruelmente reais. Pequenas crônicas, como a faixa “Caspa”, são divertimentos estranhos num mundo em que a poesia, como ela mesma diz, pode ser um atalho contra a saturação da realidade.

De “Promessas e Previsões”, como palavra escrita numa roupa velha, seca o céu, queima a floresta, se estende oca a governança no Brasil. Nos últimos dias, temos acompanhado devastados e paralisados, as queimadas na Amazônia e no Pantanal. De acordo com INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), de janeiro até agora, o Pantanal já teve o bioma equivalente a 15 cidades de São Paulo consumido em chamas. O governo nega. Hoje, o presidente do país declarou que o Brasil está “de parabéns” pela maneira como preserva o seu meio ambiente, enquanto correm soltas imagens de animais silvestres queimados, petições desesperadas pela saída do ministro do meio ambiente e pedidos de ajuda financeira, na tentativa de amenizar as consequências da inanição política.

A sonoridade sinestésica e líquida desta cantora, compositora e escritora a levou a vencer o prêmio de artista revelação da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) de 2019, e a ser indicada ao Women’s Music Event na categoria “Escute as Minas”.

Escute as minas.

Com ranço do termo Nova MPB”, Ana propõe jogos. De palavras, de recortes imagéticos em suas letras, ora surreais ora ingênuas, e sonoros. Rogério Duprat, o arranjador oficial do tropicalismo, ficaria feliz em ouvir a já comentada e jazzística “Saudade”, que abre este seu segundo álbum, sucessor de “Mormaço Queima”, de 2018.

Antes que lhe cancelem por falta de talento específico, é bom avisar que Ana Frango Elétrico, ao que parece, brinca de cantar e compor, sem esquecer de seu lugar no mundo pós-moderno. “Sou homem-bicho-mulher”, diz a garota de 22 anos, que tem admiração pela música brasileira, mas busca, ao seu jeito, romper com algum cordão umbilical ainda retroativo. E o passado, cá entre nós, nunca foi tão presente. O Brasil é cinza e púrpura, para usar um dos nomes poéticos da cor vermelha. Onde o tamanho da vida caberia no coração, mesmo pequeno, de uma humanidade menos perversa? Estamos secos, cercados e queimados. Longe de furar o olho do furacão e pisar na grama fresca só para sentir o cheiro subido da chuva fresca no ar.

Feito à Mão é uma parceria da Musicoteca com o Programa Na Ponta da Agulha.
Escrito por Janaina Fellini e Cristiano Castilho.

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