20 anos de “Máquina de Escrever Música”, de Moreno + 2

Quando Moreno Veloso abriu os olhos para ver o mundo pela primeira vez, era dia 22 de novembro de 1972. Dia de Santa Cecília, a padroeira dos músicos para os católicos, e para quem celebra a data pelo estado artista da alma em si, algo a ser comemorado mesmo longe do cultivo de qualquer motivo ou religião. Também era o primeiro dia do zodíaco regido pelo signo de sagitário, o híbrido centauro da tríade do fogo, metade humano, metade animal, impulsivo, sonhador, otimista e todas essas características experimentadas por quem segue e sente a poética ancestral da astrologia. 

Foi também em 1972, que seu pai, o baiano ilustre, lançou “Transa”, disco fundamental gravado em Londres, onde Caetano Veloso estava exilado desde 1969. É um álbum que mistura referências do rock, em ebulição à época, com a brasilidade intrínseca. Mas também é um disco que soa como saudade. Saudade de casa.

Em 1972, o Brasil era governado pelo presidente Médici, o terceiro a ocupar o cargo durante a ditadura. Naquele ano, o presidente inaugurou o primeiro trecho da Transamazônica, rodovia planejada para ligar a região Norte ao restante do Brasil. Como uma metáfora que não precisa de explicações, o projeto não finalizado até hoje. Enquanto isso, os norte-americanos realizavam o que viria a ser o marco da última viagem espacial tripulada para além da órbita terrestre: o percurso da espaçonave Apollo 17 até a Lua. Três anos adiante, chegariam os dias no ano da neve em Curitiba (1975). Mas na Bahia, onde Moreno nasceu, o calor seguia seu curso rotineiro pelos raios arcados do sol, até encontrar descanso em alguma pele, beirada de mar ou no clarear dos olhos recém-chegados de uma criança. 

A primeira música ensinada a Moreno pelo pai, “Só Vendo que Beleza”, é uma composição de Henricão e Rubens Campos gravada por Carmem Costa em 1944, e regravada por ela em 1996, com o nome de “Casinha da Marambaia”. O samba ainda ganhou mais uma versão, na voz de Elis Regina, em 1980. 

São contados agora em outubro, 20 anos do álbum “Máquina de Escrever Música” e 2 anos de programa Na Ponta da Agulha. Feliz calendário solar, que no percurso do raio ao encontro da superfície de repouso, nutre a continuidade dos dias, e em seu descanso, produz. Bem no tempo do enquanto, como na música “Enquanto Isso”, onde se ouve: “Seja fato, acaso ou pura cisma, o que vira amor sempre é bom”.

Uma canção que atravessou anos, histórias, signos, raios solares, e ganhou no ano 2000, uma releitura afetiva e cuidadosa, para o primeiro álbum de Moreno, agora já adulto e com suas próprias poéticas latentes. “Máquina de Escrever Música”, Moreno + 2, é parte de um projeto integrado também por Domenico Lancelotti (percussão), e Kassin (baixo). O título do álbum remete a uma estória envolvendo o compositor Tom Jobim, que teria se referido a um computador trazido do exterior como “máquina de escrever música”. O disco conta com João Donato ao piano na faixa “Para Xó”, e Daniel Jobim nos teclados das faixas “Sertão” e “I’m Wishing”, música do filme “A Branca de Neve e os Sete Anões”. No repertório, composições de Moreno e algumas regravações, como “Eu sou Melhor que Você”, de Pedro Sá. “Deusa do Amor” foi gravada neste álbum, e permaneceu silenciosa até renascer em “Ofertório”, gravado por Moreno junto com seus irmãos e o pai, Caetano Veloso, em 2018. Agudo leve, poesia latente, traços de tropicália, recursos eletrônicos, limpeza na execução, lastro seco e preciso, o álbum é cru e sobreposto ao mesmo tempo. É axé e soft na mesma trajetória. 

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