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O que há de cru em nós?
A indagação que atravessa o corpo, o tempo, e, talvez, a invisível natureza compondo sua obra. Este é o mistério que resume o existir, mas, que mistifica nossas ações e suas inevitáveis consequências. O cru da vida, a crueza da matéria prima, do que vem de dentro, do centro, resiste ao tempo e suas fluências de climas, energias e conclui-se ao uso ou ao desuso. A seleção de novos compositores e composições que trazem um panorama de encontros e vivências da arte e música em Curitiba não limita em nada a real ramificação de produção e de grupos artísticos na cidade, não é sobre isso, todo lugar é imensurável. É sobre encontros, potência, tempo, memoriar, relacionar-se, devoção, intensidades, amor cruel, sobre início não fim.

Em minha vivencia na antiga casinha de Bernardo Bravo no final de 2015, em minhas andanças por vários lares nesta cidade com muitas conversas sobre arte, música, vida, futuro e muito, mas muito passado, resolvemos nos conectar com artistas próximos, e as evidências que compunham um paralelo entre presente e futuro, entre novidade e frescor. Todos esses 18 artistas toparam nos visitar e trazer sua composição e seu corpo artístico interpretativo para um registro cru, em algum lugar que se sentissem bem pela casa, na sala, no quintal, na varanda, cozinha, banheiro, lavanderia, quarto, sala e se relacionar com o clima, com os ruídos da cidade, as interferências da cidade. Um registro de um microfone e câmera. E hoje depois de maturado e após muita espera pelo retorno da musicoteca, eis aqui um salve a permanência da matéria prima.

O cru que passa pela coçadinha de um corpo de tantos A’s (arte-istas), a benção do pai, da mãe e o acalanto no coro das cigarras que entram harmonicamente naquele entardecer de verão, os pássaros que voam e doam sua cantoria entre as palmeiras imperiais de uma tarde ensolarada próximo ao recreio das crianças dentro do pátio da escola, a organicidade impressa entre hombre e mujer, um duelo imprevisível na força e potência feminina e o roçar masculino que vibram questões urgentes. A saudade voadora que preenche o quarto e se acalenta em um violão sobre a cama cálida. O sexo da lembrança com a chuva. A milonga do sertanejo do sul, a imersão do toque e pés no chão, com devoção na escolha de morar dentro de si. No dia seguinte, Miss Europa chega na entoada de um belo violão e se aporta nas escadas em frente da casa, suplicando ou questionando o imigrar, e migrar-se humano, numa melancolia séria por justiça e corpo. O que fazer? É quase uma carne que sobra, é quase uma carne nazi, mas não é oportuno.

A vida, como todos os dias, segue. Será ela feita a partir do único, do todo? E toda dor vem pra dar folga e poesia. Fala-se neste verão de dois, do par, será ele o primeiro encontro que transmuta? O duo? Eu e você? Amor e dor? Nós dois e depois mais outro e outro… Ninguém sabe de tudo e poucos se entendem, nasce, bate, chora, cresce, ser homem. Travesti, freira, gay, político, super homem. Renova essa cara, HOMEM! Orgânico, clichê, contemporâneo, chato homem. Pequeno grande ser. A vida não é justa, e é curta. A gente sai da linha, a gente pinta e borda… quando pensamos cru, quando pensamos vida. Entre encontros, movimentos e toques, passamos tardes inteiras de amor, vimos cerejeiras em flor, sejam elas macha ou fêmea. Todo amor é imoral. Todo amor é incesto, todo amor é protesto.

Coisas perecem, vidas morrem para alimentar novos grãos, novas lutas por existir, lacrimeja entre dentes o violão. Viver é sem perdão, Menino Pão, me olhando desse jeito, eu digo não? Na miséria do mundo ninguém quer voltar às origens. Foge que nem saroê do mato, expondo o canalha que nos é. E assim ninguém reconhecerá o canalha que podemos ser.

Para atravessar a fidelidade questiona-se a resistência do corpo, do desejo, afoita natureza que repele o gozo, a proteção do sagrado e mistificado cu. Ai ai, pára, eu não consigo. Assim, penetrando nas profundezas do pudor, nosso preconceito bate no violão e em nossa face. De 18 artistas convidados, uma intensa mulher canta sobre nosso preconceito enraizado, ontem e hoje, aqui e aí também, em nós: Por que não tem paquita preta? Por que não tem, né?!

Ao decorrer de tanta intensidade e crueza, aqui fica um registro panorâmico que não tem pretensão de limitar, significar e muito menos reduzir. É preciso falar, gritar, invadir, e se preciso for assumir o cru em nós. Precisamos falar sobre daqui pra frente, a partir do que somos e conseguimos fazer com o que nos cerca e nos perfura. De delicadezas e virtualidades a antropofagia não sucumbe, mas propõe o festivo e vibrante vigor de despertar o sentir além do pensar. Investigar novas possibilidades de atuar através da arte e da poética não é mera construção, essa matéria prima não solidifica prédios nem pavimenta estradas para sustentação e tráfico das coisas. Os caminhos que estão sendo construídos e estendidos são para pensarmos mundo, sentirmos pessoas, natureza, diferenças e novas, muitas novas histórias.

Músicas do álbum:

1 – Coçadinha – Bernardo Bravo
Composição: Bernardo Bravo
Sobre o sofá da casa

2 – Bença – Amanda Pacífico
Composição: Amanda Pacífico
Cigarras: Cigarras
De dentro da banheira

3 – Palmeiras Imperiais – Lemoskine
Composição: Rodrigo Lemos
Descalço no quintal

4 – Mismo – Jú Cortes e Du Gomide
Composição: Leo Minax e Estrela Leminski
Na cama do escritório

5 – Saudade voadora – Melina Mulazani
Composição: Melina Mulazani
Dentro do quarto de dormir

6 – Milonga interiorana ou devoto – Conde Baltazar
Composição: Conde Baltazar
A mesa da cozinha

7 – Miss Europa – Luciano Faccini
Composição: Ricardo Corona e Luciano Faccini
Música: Luciano Faccini
Sentado na escada da varanda

8 – Se todo samba – Ana Larousse e Du Gomide
Composição: Ana Larousse e Du Gomide
Caneca e tapete da sala

9 – Menino Pão – Luiz Felipe Leprevost
Composição: Luiz Felipe Leprevost
No centro da sala

10 – A vida não é justa – Estrela Leminski e Téo Ruiz
Composição: Estrela Leminski, Téo Ruiz e Livia Porto
Em meio aos quadros

11 – Homem – Raissa Fayet
Composição: Raissa Fayet
Sobre o tapete da sala

12 – Três metades – Fernando Lobo
Composição: Fernando Lobo
Calor no meio da sala

13 – Aparelho de memoriar – Cida Airam e Luiz Otavio
Composição: Patrícia Palayne
De tarde no sofá

14 – O canalha que tu és – Ivan Halfon
Composição: Ivan Halfon
No baú do escritório

15 – Magal não rola – Amira Massabki
Composição: Amira Massabki
Conversas no banheiro

16 – Por que não tem paquita preta – Simone Magalhães
Composição: Simone Magalhães
Intensidade com o violão na sala de estar

17 – Mossunguê – Orquestra Friorenta
Composição: Amanda Pacífico
Festa na cozinha da casinha

Ficha Técnica Álbum: Cru Artístico / 2017

Idealização e curadoria:
Bernardo Bravo e Web Mota

Captação orgânica de audio:
Bernardo Bravo e Web Mota

Registro em video:
Gabriela Olivo
Assistentes: Gaspar Carrilha e Vitória Galvão

Masterização (equalização de áudio):
Du Gomide

Arte gráfica:
Web Mota

Agradecimento especial:
Zéfere, Téo Ruiz, Lívia Porto, Janine Mathias, Du Gomide, Janaina Fellini, Naira Debetolis, Denis Mariano, Luciano Faccini, Amanda Pacífico, Rodrigo Lemos, Jú Cortes, Leo Fressato, Leo Minax, Conde Baltazar, Melina Mulazani, Ana Larousse, Le Prevost, Simone Magalhães, Luiz Otavio, Estrela Leminski, Cida Airam, Patrícia Palayner, Ivan Halfon, Amira Mussabki, Raissa Fayet, Fernando Lobo, Livia Porto, Luiza Nunes, Má Ribeiro, Vivi Medeiros e Ricardo Corona.

Parceiros:
Tertúlia Produções e musicoteca.

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Profile photo of Web Mota
Mineiro, teve seu contato com o universo da música inter(independente) em 2003, quando se mudou de Minas para São Paulo aos 18 anos. Desde então dedicou-se a pesquisa e divulgação de novos artistas como lazer e paixão, totalmente independente.

Músicas / Álbuns

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