O revolucionário dia que resgatei o colar do Chico César

Foto: Michele Alves

No dia 2 de novembro de 2019, no Circo Voador, durante o show de lançamento de seu novo álbum, O Amor É Um Ato Revolucionário, o colar que Chico César usava caiu no palco próximo à borda. Eis que, sem nenhuma vergonha na cara, um cidadão de bem aproxima-se do palco, pega o colar e o veste tranquilamente, como um troféu. Com orgulho, volta pomposo em direção à sua acompanhante e mostra o feito mas claramente sem assumir – para si mesmo primeiramente – o ato desonesto que acabara de cometer.

Começa um burburinho ao redor sobre o acontecido, quando percebo que a maioria dos comentários vinham de mulheres, que como eu, externalizavam suas indignações. Senti-me muito empoderada por estar naquele lugar e sem pensar duas vezes, fui até o cidadão de bem e dei um tapinha em seu ombro. Ele me olhou sem entender e eu me fiz entender rapidinho: “Cara, me devolve o colar” e estendi a mão. Pouco desconcertado, mas mantendo sua altivez, ele disse que era emprestado e devolveria no final do show. Não desisti e falei calmamente: “não, você vai me devolver agora”. Ele pensou uns segundos e me perguntou se eu era da produção, eu disse que não e ele falou que só devolveria para a produção. Não hesitei em concordar com um sorriso irônico e olhando em seus olhos. De onde estávamos, que era em frente ao palco, olhei para a coxia e como mágica uma pessoa da produção também me olhou. Com aquela música toda era impossível ele me ouvir e falei sem emitir sons e com gestos: “caiu o colar do Chico” e o cara da produção: “cadê?” E eu apontei lindamente para o colo do cidadão de bem que estava parado à minha direita sem acreditar no que estava acontecendo. O cara da produção pediu o colar de volta e o cidadão de bem devolveu, entregando junto parte da sua arrogância.

Quando voltei ao meu lugar, a mulherada que estava indignada e me potencializou, veio me cumprimentar. Olhei cada uma de volta, apertando suas mãos, e dizendo um sonoro: “não passarão”. E parecendo roteiro de filme, nessa hora estava tocando: “Mas nós temos a pedrada pra jogar / A bola incendiária está no ar / Fogo nos fascistas / Fogo, Jah”
Esse colar foi um ato revolucionário.

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