Primeiro disco: o que saber

INTRODUÇÃO AO ARTISTA INDEPENDENTE
Embora o conceito não seja aplicado ao pé da letra, o termo “independente” na música moderna digital revela-se mais como uma performance de resistência e filosofia do artista popular brasileiro e seu alcance do que a independência de sua produção autoral de fato. Os artistas autônomos da geração digital atuam na organicidade de seu encontro afetivo e já conseguem com essa aproximação e diálogo financiar boa parte de sua primeira obra subsidiada por amigos e amantes de música brasileira. Se você é um cidadão ou cidadã com privilégios, recomendo reconhecê-los o quanto antes possível desse diálogo com o público. Existe uma rede de economia criativa atuando de forma orgânica, e é fundamental identificar a melhor forma para que seu público possa investir e impulsionar sua obra, antes que as coisas comecem a não fazer sentido para a decisão do público. Ele organicamente escolhe projetos originais, que os sentidos da verdade e arte se confluem. Existe o “financiamento” que precede a concepção da obra e que exige clareza com a real necessidade do artista em realizar sua arte, para a magia fazer efeito é necessária muita verdade e amor. E o “incentivo” é decorrente do pós-obra, momento de colher e se conectar ainda mais com o seu público: agradecer, filosofar, trocar, evoluir e estabelecer conexão real. 

Existem duas premissas/dilemas macros para artistas que ainda não lançaram seu primeiro Álbum Musical: audiência e/ou organicidade de valor cultural. É delicado fazer uma cruzada com tão limitadores parâmetros de uma complexíssima discussão sobre o processo de lançar um álbum nos anos 2000, mas se você não sabe por onde partir suas ideias de planejamento e pesquisa, talvez isso possa lhe trazer algumas direções para se encontrar nessa frenética produção musical que a internet nos trouxe. 

AUDIÊNCIA QUE DEPRIME
Muitas questões e críticas colocadas hoje sobre a “cena” musical e que nos levam à depressão artística vêm justamente das expectativas de aprovação que as estatísticas de audiência tornam públicas. Caso você seja um artista que não tenha interesse na análise interpretativa ou na pesquisa de entender aonde você está chegando e como isso acontece, isso pode tornar o seu caminho um pouco mais difícil consigo mesmo(a). Trabalhar sobre essa ótica é construir muros em volta de um universo. Não poderíamos te ajudar, então neste caso aconselhamos um “mananger/CEO”, que pode te auxiliar com as demandas pop e os detalhes requeridos para os processos da indústria envolvendo inúmeros intermediários. Nesta resenha estamos falando com o pessoal do próximo parágrafo.

ORGANICIDADE CULTURAL
Ao contrário do motor da audiência e das estatísticas das plataformas, o artista autônomo deve reconhecer valores afetivos na germinação de uma carreira e obra para um(a) “iniciante” que ainda não tem aparatos resolutivos para uma ação de lançamento de sua primeira obra musical (Álbum), ou, ainda, que preze pela sua originalidade, liberdade criativa, formatos e parcerias. Esses valores estão na coesão entre a concepção da obra e, a partir deste momento, seu trânsito pelas redes. No caso da arte autônoma, uma visualização de sua obra fora das plataformas tem valor de 10 ou mais no streaming hoje em dia, por uma questão de organicidade na descoberta do ouvinte por coincidência de seu universo digital ou por indicação de outro amigo que também experienciou outras descobertas nesse caminho. Grandes obras, autores e projetos de arte e cultura entenderam seu caminho reconhecendo e dialogando com seu público orgânico como principal valor de conversão progressiva na compreensão da qualidade de sua obra e como seu sucesso tem mais a ver com sensibilidade e as possibilidades de encontro. Esse sim talvez seja o grande conversor real dessa progressão biográfica e poética. Partindo desse lugar de entrantes e consumidores de cultura alternativa, vamos apontar abaixo algumas sugestões de como reduzir os anseios e ampliar sua rede e entender nossos espaços e possibilidades.

ANTES DE GRAVAR
Há infinitas inspirações e cruzamentos do artista para entender o que é e a necessidade da pesquisa no auxílio de liberdade criativa, pois não existem obrigatoriedades no universo criativo/criador. Neste caso, a sugestão da pesquisa é direcionada para uma inserção mais estratégica nas possíveis linguagens no campo internético. Na indústria fonográfica a multilinguagem exige praticamente adaptações no máximo de formatos e edições possíveis para atender o maior número de plataformas e suas ferramentas interativas, e isso requer uma equipe e dinheiros (privilégios). Com a pesquisa de referências e linguagens, você consegue entender melhor quais dessas plataformas e linguagens atendem e se cruzarão com as emoções de sua obra: será que é vídeo mesmo? Tem que ser? – look forçação tem limites? – tudo cabe em vinil? – quais os formatos de shows que o álbum pode oferecer? Pois é! São muitas questões, possibilidades e escolhas. Mas o mais importante é saber identificar quais as suas possibilidades nesses formatos para aplicá-los e acompanhá-los. A partir daí, todas as respostas serão sucesso e transformação para um trabalho de arte. Não espere de seu primeiro disco o sucesso apenas, ele sempre aparecerá nos encontros, nos diálogos, e nas possíveis apresentações. Cada um deles será um embrião original de sua força artística. Esse é um dos valores da Originalidade Cultural. Para 1000 ou para 10, as pessoas transcendem e mudam o universo com você.  

O QUE DISTRIBUIR E COMO
É importante, e com o primeiro passo da pesquisa você descobrirá as informações básicas e o que deve sempre acompanhar sua obra até esse caminho aos ouvintes e intermediários pesquisadores como produtores culturais, rádios, festivais e espaços de shows de todos os tamanhos. Aconselhamos um “kit de divulgação” com o máximo de informações técnicas possíveis, não só compositores e artista/banda. E é nessa fase que você enriquecerá substancialmente a entrega e as decisões de shows e aparatos necessários para elaboração e identificação de pautas dos receptores. Assim os interlocutores começam a ter um pouco mais de dimensão do processo do artista. O grande “diferencial” é também trazer novos artistas parceiros e de outras artes, como a fotografia, artes visuais, vídeo, figurinistas, músicos e diversos encontros. Essas informações devem condensar esse kit para envio aos possíveis canais com o mesmo capricho. É importante que você também garanta a distribuição de sua obra com a melhor qualidade possível. Abaixo, em tópicos, destacamos algumas informações básicas que você consegue realizar sem adicional financeiro.

Ficha técnica completa da Obra: todas as pessoas e espaços envolvidos;
Ficha técnica de cada canção sempre que possível;
Fotos de divulgação em alta resolução e créditos do fotógrafo/ilustrador;
Álbum em mp3 320kbps com todas as tags internas já editadas com capa;
Contatos para shows e todas as redes do(a) artista/banda;
Release de apresentação da obra e bio do(a) artista/banda;
Rider de palco e formatos de shows possíveis; solo, acústico, completo;

Além das maiores plataformas de stream, o(a)s artistas independentes com suas primeiras obras podem buscar bons impulsionadores também independentes e que poderão como intermediários conectá-los a outras redes que reverberam potências muitas vezes anônimas, como curadores, consumidores de shows e novidades originais do Brasil. Esses intermediários podem ser produtores culturais ou canais de informação sobre música e proponentes de projetos de fomento em diversas escalas. Mais uma vez, a pesquisa de como você mesmo consome e descobre música antes mesmo de lançar sua obra fará diferença nessa fase. Depois da ascensão da indústria do streaming em 2009, muitos artistas optaram por dialogar com dedicação a esses espaços de serviço. Com esse novo formato de consumo, outras plataformas alternativas perderam força, foram vendidas ou deixaram de existir porque muitos artistas se desconectam desse lugar alternativo e de origem após obter visualizações mais seguras que lhes deem o aporte do subjetivo sucesso. Muitos deles abandonam a luta pela difusão da música como base fundamental da cultura. Mas, para quem quer que a música circule, é uma ótima pedida tentar acionar e não subestimar novos e ativos projetos de difusão de todas as culturas. Mesmo com a distribuição gratuita da sua obra, é possível que o(a) próprio(a) artista/banda tome esse controle, contato e autorize onde e como a sua obra deve chegar nesses canais. 

COMO INICIAR CONTATOS
Comece pelos blogs/sites e as novas rádios alternativas de música. Independente de sua potência, ter pessoas falando sobre música, a sua música, pode trazer starts e universos inspiracionais com relações mais humanas e de alto impacto poético e de identificação de tempo e origens para criar oportunidades. Estar em todas as plataformas será cada vez mais: apenas estar. E, enquanto a “carreira” não chega, é o momento de ir aos encontros que podem ser propostos sem quaisquer barreiras ao acesso a sua obra. Não fique apenas no stream, disponibilize seu trabalho nem que seja em seu site. A internet é infinita. Pesquise e aborde espaços e pessoas que amam música brasileira de verdade. É por essas pessoas que as coisas podem se movimentar. Poderíamos dar muitas dicas aqui, mas essa pauta de espaços ficará para nossas próximas publicações para não nos alongarmos muito.  

O QUE ACONTECE DEPOIS
Em anos de convivência quase que diária com artistas de quase todas as artes, a sensação que mais coincide nas discussões após lançamento de suas primeiras obras é que não há uma racionalização potente de realização que ainda não reverbere algum tipo de status cult que garanta não só ao artista a sensação de esforço e trabalho cumprido. Até nas camadas mais reflexivas, originais e autocríticas o “sucesso” presta seu serviço de ditar coletivamente o valor imensurável da poesia e sua profunda transformação nos indivíduos envolvidos. É visível e natural o reconhecimento da produção com alto nível de preocupação e profundidade que artistas independentes estão produzindo. No entanto, o paradoxo de aceitação popular não parece mais se explicar apenas através da acessibilidade. Dito isso, talvez você possa viajar diferente nos dias de hoje, como muitos artistas vêm amadurecendo e entendendo cada vez mais a dimensão e verdade do seu trabalho como um novo valor bruto e original, também reconhecido pelo seu público orgânico, internalizando sua importância e atravessando o consumo e oferecendo experiência que inevitavelmente exige o mínimo de sensibilidade. A primeira obra é um nascimento, e não há valor que deva mensurar sua real verdade de existir. É a partir dela que as redes se expandem. O aprendizado e as emoções capturadas e vividas através dela e do público é que poderão ressignificar o modelo de sucesso e saúde social dos artistas com suas obras. Converse, escute outros artistas próximos, eles estão aí com muitas coisas para compartilhar e ajudar a todos nós e construir uma rede mais digna para que o acesso à cultura não seja o vilão dos artistas e sim a base de tudo. 

COMO POSSO AJUDAR OS ARTISTAS INDEPENDENTES
A maior conquista dos artistas autônomos é o seu reconhecimento como artista através das pessoas, do seu público, do seu ciclo de vida. Nenhum sucesso mantém acesa essa chama do reconhecimento de cada indivíduo. Além de poder financiar, comprar os álbuns ou ir aos shows e não reclamar do valor dos ingressos, você pode começar reconhecendo todos os artistas que vivem em sua volta, não só os da TV ou do Rock in Rio, e divulgando com respeito e carinho o trabalho de seus amigos. É preciso respeitar, compreender e dialogar com os artistas próximos de você, de nós! É urgente essa injeção de ânimo e vida aos que nos propõem sentir algo, que ampliam nosso sentir. Pendure quadros de seus amigos em sua sala, ouçam discos de artistas próximos ou novos em sua casa, com seus amigos, converse com eles sobre, fale dos universos de cada um dele(a)s, de suas histórias. Trate sempre um artista como um artista deve ser tratado: com respeito, com reverência e beleza todas as suas adversidades e condições filosóficas. Apresente seus amigos artistas com toda majestade e importância que todos e todas merecem. Nossa dignidade começa também quando reconhecemos nossos amigos também como grandes artistas que são, talentosos e importantes não apenas para o mundo, mas para nossa cidade, nosso bairro, nossa turma, nossa casa, nossa solidão. É sobre se reconhecer também, construir e preservar as culturas e colocar valor onde realmente há.

Foto: Jason Rosewell

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