Saída – Marcelo Callado

A primeira palavra que descolou do acrílico e saltou flutuante ao meu redor, já na faixa que abre o trabalho “Saída”, do artista Marcelo Callado, foi “escuta”.

Um pedido imperativo, implorativo diz: escuta. E repete escuta, escuta, escuta. Dar atenção ao que se ouve até escutar de fato algo dito é um exercício de alteridade. Os artistas na posição de comunicadores, falam, dizem, contam, cantam, expressam, traduzem, conectam, enquanto seguram seus microfones e sustentam seus palcos na esperança de encontrar quem ouça e, com sorte, quem escute as mensagens penduradas no sonhário rarefeito de suas criações.

No tempo de agora, entre implorares movimentos ao encontro de saídas por entre outras frestas, quem amplia a direção da escuta, pode finalmente congregar com vozes que falam há muito tempo, porém só agora podem ser escutadas. Falas vindas de lugares silenciosos da sociedade, que ao longo do tempo, tiveram suas frequências diminuídas ao mínimo e seu coro encorajado à não valia. Entre estas vozes, no radar brasileiro, estão nomes como Djamila Ribeiro, Silvio Almeida, AD Júnior, Kaka Werá e o líder indígena e escritor Ailton Krenak, guardião da retórica de argumentos fundamentais para quem está pensando no agora como um tempo que pede sua própria saída por vias mais gentis, vãos fluidos e escorregadores coerentes para pontas de arco-íris oferecidos pela natureza. Inspirado pelo livro de Krenak, “Ideias para Adiar o fim do Mundo”, Callado escreveu e escolheu abrir a porta da procura pelo encontro da saída, em seu quarto álbum solo, com uma conclusão: Tudo é Natureza.

O álbum foi produzido durante o isolamento social, momento em que a saída para muitos de nós, especialmente para os artistas, teve que tomar direções criativas, sucumbir ao limite das trocas online ou de encontros diminuídos, longe de uma escuta proximal, e na decisão de direcionar o único saimento possível, encontrá-lo do lado de dentro. Em casa, onde os olhos encontram as paredes e o céu longe reconstrói descansos para trajetórias nunca antes interrompidas, é que chegam à tona reflexões sobre saudades, afetos, buscas, faltas, e o encontro em si. Callado traduz para suas saídas profundas duas faixas, uma que leva o nome do endereço da casa da avó“Assis Bueno 37”, e já na sequência, “Toque de Mãe”, música construída sobre a poesia de Daniel Gnattali. Em duas parcerias com Ava Rocha “Verso Vivo” e “Borboletas”, e outras duas com a querida Rosa Barroso “À prova” e “Simbora”, mãe de uma artista plástica incrível (Lívia Moura), o álbum é enxuto, seco, objetivo, direto. Verbo na frase, frase com sujeito, sujeito sensível e dito no repertório construído por Callado em parceria com nomes como Bem Gil na faixa “Conte comigo” e Pedro Sá em “Se Quiser que Vá”. Callado é conhecido também por ser baterista de Caetano Veloso, Alice Caymmi e Jorge Mautner. Mas neste momento de revelação da introspecção guardada, o músico dá nomes às suas próprias cores. É o líder da sua própria narrativa, coesa e precisa. O disco também tem a participação da cantora Silvia Machete, Ana Frango Elétrico (baixo), Moreno Veloso (violoncelo), Pedro Sá (guitarra), e Vovô Bebê (flautas).

Na fruição preditiva – e por hora imaginária – da algaravia do mundo no momento em que sairmos do estado pandêmico, é de se esperar que algo tenha sido escutado, absorvido, integrado. Há saída pelo encontro ou pela fuga e, de qualquer forma, sempre haverá um caminho que diz mesmo sem ser escutado.

Feito à Mão é uma parceria da Musicoteca com o Programa Na Ponta da Agulha.
Escrito por Janaina Fellini e Cristiano Castilho.

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