Silvia Machete – Rhonda

Pegou o casaco vermelho, vivo aos seus olhos. O vestiu, puxou a porta de correr, e já não tinha como escapar. À sua frente, o espelho. Conferiu a maquiagem, notou mais uma vez um único fio de cílio curvado em direção ao céu, que não descia igual a todos os outros, como um arco para o chão. E isso de um único cílio revirado no canto do olho esquerdo, pensou, seria também um desvio comum a outros olhos?

Girou o corpo para ajustar-se à saída, e relembrou o médico explicando:

– Seu quadril faz uma rotação inversa que compensa a tensão do lado direito do corpo. Um lado equilibra o outro, fazendo ajustes até alinhar.

Já do lado de fora, ajeitou a ponta do tapete vermelho e saiu.

Mergulhou na noite sozinha e a contragosto, desembarcando no bar e encostando a fina pele dos seus braços, um em cada canto da cadeira fria. Teve vontade de fumar. Mas não a suficiente para alcançar algum cigarro guardado nos bolsos de outras pessoas que dividiam aquele mesmo espaço com ela – mas que dela mesma nada sabiam. Parecia “Meia-Noite em Paris”, parecia um conto de Clarice Lispector, parecia uma noite sem propósito no abismo sem fim.

Entre um pequeno movimento e outro, no ato de levantar um copo e os olhos, girar à direita ou à esquerda, alinhar alguma trajetória compensada em seu corpo, tinha certeza de que parecia, ao olhar alheio, uma pessoa normal: mais uma mulher de casaco e batom vermelhos, cabelos presos e olhar difuso, em busca de uma noite para abastecer-se de histórias ao acaso.

Porém, era no profundo de suas fáscias que sentia o desacompanhar de si mesma infiel à própria ideia de acompanhar-se, pela primeira vez, na noite após o fim, e na sequência, saber-se capaz de recuperar a intensidade do elo perdido.

Imaginou dançar, imaginou rir alto, sentir o cheiro da fumaça da rua, encantar-se por alguma esquina e flertar com algum desconhecido. Mas agora ali, entre tantos encaixes, rangiam sobre seus pensamentos somente lembranças de velhas portas que deveriam estar fechadas para sempre. O fim do amor é como um dia que chegou adiante e nunca no tempo certo, do jeito bom. O fim, definitivamente, não é um ajuste compensatório em busca de equilíbrio.

Com os dois pés sobre o tapete, revirou a chave na porta de casa. Tirou o casaco vermelho, largou as chaves sobre a mesa. Suspirou. Deitada com os olhos abertos, com um único cílio arrepiado e um quadril em rotação, encostou a fina pele dos seus braços, um em cada canto do seu próprio corpo. Como se fosse possível levar a noite adiante, a vida adiante, para o próximo amor.

“Ronda” é um samba-canção de Paulo Vanzolini lançado em 1953 por Inezita Barroso. Durante anos, e principalmente depois da versão de Nelson Gonçalves, povoou o imaginário dos boêmios com dor de cotovelo, já que narra, a partir de alguém extremamente apaixonado e ao mesmo tempo desiludido, uma corrida noturna desesperada em busca do amor fugidio.

“Rhonda” é o quarto álbum autoral da cantora e compositora Silvia Machete. Com dez músicas autorais em inglês e uma regravação de “With No One Else Around”, de Tim Maia, é um disco para se ouvir atravessando o corredor entre um amor perdido, e o próximo dia adiante.

A ambientação acústica e intimista faz de “Rhonda” um dos discos mais sensíveis deste 2020 – ano que nos esmaga a cada dia por parecer infinito e sem perspectivas. As canções nasceram a partir de um tema comum a todos os que estão vivos: o fim da paixão. Por isso, “Rhonda”, mesmo em inglês, cativa quem precisa de uma mão para seguir adiante neste caminho tortuoso que nos foi oferecido.

Fluida e cativante, a vibe do álbum muito deve à bateria de Vitor Cabral, ao baixo de Alberto Continentino, aos teclados de Eduardo Lima e à guitarra de João Erbetta. Silvia e Continentino assinam a maioria das composições. E há, também, duas parcerias dela com o músico Emerson Villani, e uma com o norte-americano Nick Jones – escritor das séries ”Orange is The New Black” e ”Glow”.

Vale a pena citar a participação do tecladista e amigo de Nova York Jason Lindner, um dos responsáveis pela sonoridade do aclamado disco ”Blackstar”, último álbum de David Bowie, lançado em 2016.

Com uma rica paleta de vertentes e influências, “Rhonda” transita entre um soul rasgado e elétrico (“Cactus”), passa por um funk ornamentado  (“One of the Kids You Know”) e chega em um jazz-latin-rock dos mais incrementados, caso de “Messy Eater”.

Silvia Machete faz música sobre aquilo que já não é, sobre aquilo que morou no coração de alguém por um tempo, e hoje voa a espera de outro pouso.

Rhonda é o álbum que você ouve na segunda-feira, no Programa Na Ponta da Agulha, apresentado por Jorge Lz.

Feito à Mão é uma parceria da Musicoteca com o Programa Na Ponta da Agulha.

Escrito por Janaina Fellini e Cristiano Castilho.

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