Tupiniquin – Canções Pro Fim do Mundo

Há diversos fins do mundo. Uma onça queimada em meio à negação do fogo. A destituição da poesia. O retrocesso deliberado quando o que resta de nós insiste em olhar para frente. A vulgaridade como método. A política como meio para destruir instituições, e por consequência, as sociedades, as pessoas, os sonhos, o futuro. A hipocrisia como pavimento para a perpetuação da ignorância. 

Jorge Tupiniquin leva no sobrenome/codinome um tropicalismo que poderia até ser chamado de anacrônico, não fosse o fim do mundo deliberado um acontecimento com o qual lidamos hoje, de um jeito ou de outro. Este Tupiniquin dos anos 2020 está mais conectado com a essência do movimento setentista do que com sua estética, visual e sonora. Por isso, “Canções Pro Fim do Mundo”, terceiro álbum do cantor, compositor, instrumentista e produtor paulista, soa profundo, longe, imagético, quase desesperado. Contemporâneo. 

O resultado do disco é uma reflexão que vem de algum tempo, e de certa forma foge das instantaneidades que dominam nossos fins de mundo cotidianos. Tupiniquin trabalhou no projeto durante quatro anos, e, com produção de Yuri Kalil, gravou o disco em estúdios no Rio e em Fortaleza.

O single, divulgado na companhia de um clipe, é “Cristalina”. A base no violão convida a voz profunda e ao mesmo tempo pequena de Tupiniquin a flertar com ecos de outros cantos, que nos tempos de hoje, naturalmente, soam mais fantasmagóricos do que angelicais. 

Em “Samba Triste Que me Fez Sorrir”, o destaque é a turma boa de Tupiniquin: Yuri Kalil na bateria, além de Dustan Gallas no piano e sintetizadores, Fernando Catatau nas guitarras, Regis Damasceno no violão de 12 cordas e Dengue no baixo. Esta faixa, em especial, é uma espécie de recado sincero à desolação: o que faz doer nos faz sentir.

Em inglês, “Caroline (The Girl From FB)” lembra, por exemplo, as nuances melancólicas de Beck em seus discos mais recentes, em que o etéreo exposto se confunde com um pop desacelerado. A faixa revela também a força cada vez maior do alter ego feminino de Tupiniquin, Marieva, que começa a cobrar reconhecimento em forma de criação. 

“Deusa Música” tem nome autoexplicativo. A música é uma meta-conversa com a própria música, como numa saudação que vem sem avisar, ainda bem, para colorir um pouco os tempos cinzentos. 

O boogie-blues “Cante, Dance, Faça!” tem guitarras em destaque e novamente faz uma veneração à arte de criar (e de amar) em tempos de pandemia e de pandemônios: “Cante/ que a melodia cura/ se você cantar”.

A bucólica balada “Um Baita Amor Companheiro (Barco Astral)” fecha o disco é a única canção feita em colaboração, assinada em companhia de Katherina Tsirakis. 

Tupiniquin está na estrada desde 2007, quando retornou de uma longa estada nos Estados Unidos. Por essa época, lançou seu primeiro álbum, “Made In São Paulo”, editado na Europa inclusive. 

Neste “Canções Pro Fim do Mundo”, em cuja capa o próprio artista afunda na água sem resistência, na posse de seu violão, Tupiniquin propõe, ainda que acanhado, a valorização da criação ante a ausência de sentido das coisas, outro sentimento pandêmico e potencialmente fatal se não interrompido.

“Canções Pro Fim do Mundo” é o álbum que você ouve na segunda-feira, no Programa Na Ponta da Agulha, apresentado por Jorge Lz.

Feito à Mão é uma parceria da Musicoteca com o Programa Na Ponta da Agulha.
Escrito por Janaina Fellini e Cristiano Castilho

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