Um Verão Qualquer: os caminhos visuais e poéticos do novo disco do Versos

Após o primeiro álbum homônimo (2014) e o lançamento do segundo disco Desate (2015), o duo Versos que compomos na estrada completa a tão esperada trilogia poético-sonora com Um verão qualquer (2019) – que eu tive o privilégio de ser convidado mais uma vez para assinar a concepção visual da capa.

Exclusivamente para esta ocasião, a Musicoteca me chamou para falar um pouco sobre o processo criativo e as minhas  inspirações durante a realização do projeto gráfico. E é ao som das seis faixas deste novo trabalho musical que escrevo esta lembrança aqui da cidade grande:

Cresci numa pequena ilha do oceano Atlântico no início da década de 90. Na visão líquida dos meus olhos ingênuos, todo meu redor se fazia flutuante. Uma fronteira móvel e, ao mesmo tempo, fixa, permanentemente contornava minhas brincadeiras de criança. Uma delas – talvez a preferida – era caminhar em direção ao mar. O mais próximo possível desse gigante azul. Mais do que ver, eu gostava mesmo é de ouvir a capacidade criativa das ondas. Basicamente, margeava o espaço de terra mais próximo do litoral e posicionava as minhas orelhas na direção contrária do vento. A brisa vinda do infinito se encarregava de preencher os meus tímpanos com a melodia inexplicável do invisível.

Às vezes, o gigante azul se aventurava na poesia e esquecia alguns versos na solidez das conchas naufragadas. A cada nova descoberta, minhas pequenas mãos acolchoavam essas conchas ao pé dos meus ouvidos e eu ficava à espera do sonoro desconhecido. Naquele momento, o silêncio do mundo inteiro reverberava em mim como se me pedisse para revelar algo que nunca saberei exatamente o que é. Desde cedo, aprendi a sonhar em plena luz do dia. Com olhos abertos e ouvidos atentos. No caminho de volta para casa, vez ou outra, eu escutava as andorinhas. Era o prenúncio de uma nova estação. O meu verão tinha tonalidade ocre e vinha acompanhado de uma brisa melancólica: extremamente sensível. Como se fosse o tempo dos poetas onde quem aquece já não é mais o solitário sol, mas a palavra solidária escondida nas ondas melódicas. Os pássaros são notas na partitura do firmamento.

Quando recebi o convite para traduzir imageticamente o conceito sonoro deste projeto, o primeiro desenho que me veio foi o de um ser indefinido (portanto, de infinitos significados) de braços abertos, formando um horizonte. Lembrei imediatamente de um verso antigo que eu havia ilustrado em guardanapo: O Horizonte é o abraço que você nunca me deu. Desde sempre, na minha cabeça-avoada, essa linha que chamamos de horizonte sempre representou um abraço desejado e nunca realizado. Um gesto incompleto; logo, eterno.

Para o traço, pensei em seguir literalmente o fluxo das águas: a narrativa do mar. O mar não é analfabeto. Ele usa uma outra linguagem própria, com sílabas impronunciáveis ao conhecimento humano, mas que dizem, comunicam, declamam, derramam dores e alegrias no peito de quem se arrisca a navegar. Dois barcos, ondas delicadamente caóticas e um sol imponente completam a arte. A ideia de ilustrar navios que partem em direção contrária é de mostrar que, apesar desse visível afastamento, os caminhos se encontrarão em algum lugar ainda invisível.  A vida não seria um eterno ciclo/círculo com seus permanentes encontros, reencontros, chegadas e despedidas? Inconscientemente, essa ilustração funcionou como uma representação gráfica do longo hiato musical que o duo passou nesses últimos tempos.

Hoje, escrevo de longe daquela pequena ilha. Meus pés calçam um número maior e já não pisam mais na areia fofa em busca de alguma concha naufragada. Meu horizonte é uma sequência interminável de prédios pontualmente interrompido por uma árvore esperançosa ou um pássaro desatento. E é daqui que agradeço à Lívia e ao Thom por me permitirem respirar novamente o oceano Atlântico mesmo sufocado nesse mar de concreto chamado São Paulo.

7 comments

Deixe uma resposta