Marília Landi – Barco

Recentemente, Adriana Calcanhoto deu uma entrevista no programa Vozes do Brasil sobre o seu trabalho “Só”, produzido durante a quarentena. Especificamente sobre o funk “Bunda Lê Lê”, ela diz que “nossa biblioteca individual nunca será completa. Nós vamos completando a leitura uns dos outros. Não é possível ler todos os livros interessantes que existem ao longo de apenas uma vida”.

Para o alívio dos leitores de metabolismo lento, como eu, a declaração é uma espécie de libertação atemporal, uma autorização para desapressar, uma permissão para degustar. Conviver largamente com personagens, frear a leitura por não suportar o possível conteúdo da próxima página, precisar de muito tempo de convívio com uma determinada parte da história, com um pensamento, uma palavra, são etapas que correspondem a dias de digestão. Perde-se o tempo, ganha-se a intimidade.

Na leitura do livro “O Conto da Ilha Desconhecida”, publicado em 1997 pelo escritor português José Saramago, a digestão nunca chegou ao fim. São anos de convivência com algumas interrupções, mas sem nenhum rompimento. Nesse conto, que pode ser lido em menos de hora, por qualquer pessoa em ritmo e desapego normais, um homem vai ao rei e pede um barco para viajar até uma ilha desconhecida. O rei lhe pergunta como pode saber que essa ilha existe, já que é desconhecida. O homem argumenta que assim são todas as ilhas, até que alguém desembarque nelas. E assim, em breves páginas, vai se desenvolvendo a poética filosófica profunda e extensa, permeada por diálogos como este, entre os personagens: “ … Tens com certeza um mester, um ofício, uma profissão, como agora se diz, Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passejar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa…”

Navegando no “Barco”, álbum da cantora e compositora paulista Marília Landi, o primeiro que ela lançou ao mar, não é possível saber se a Ilha existe, ou se vai ser encontrada. Mas é possível seguir no embalo de uma viagem calma e despretensiosa do disco que, ainda à beira, já ganhou arranjos do pianista cubano, e incansável incentivador de novas cantoras Pepe Cisneros. A produção é dividida entre a própria Marília e Guga Stroeter, exceto “Your Heart“, arranjada e produzida pelo pianista Daniel Grajew. São 11 composições autorais com exceção de “No Mundo”, parceria com Guga Stroeter e Pepe Cisneros. A instrumentação é totalmente acústica, e o “Barco” passeia por diversas expressões musicais brasileiras como a bossa nova, choro, maxixe e pelo universo norte-americano do jazz e do rock.

Assim são os primeiros álbuns: barcos que partem em uma viagem sem roteiro, sem destino certo. Alguns navegam longe, demoram, circulam, outros ficam sempre na beira, pertinho de poucas vistas, dessas que estão sempre a olhar, e outros ainda navegam, navegam e voltam para o mesmo lugar. Uma coisa todos têm em comum: partir é sempre para uma suposta ilha desconhecida.

Feito à Mão é uma parceria da Musicoteca com o Programa Na Ponta da Agulha.
Escrito por Janaina Fellini e Cristiano Castilho.

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