Pingue-Pongue com o Abismo | Pedro Pastoriz

Foto de: Tuane Eggers

Sísifo é o filho do vento na mitologia grega. O vento na narrativa mítica tem o nome de Éolo, origem da qualidade que sucede a palavra usina quando ela é eólica, e significa pertencente ao vento. Sísifo era um camponês, responsável por fundar a cidade de Corinto, povoada por homens que brotavam de cogumelos (imagine!). Sua esposa, Mérope, era uma das Plêiades, filha de Atlas. 

Ao contrário da orla que margeia o imaginário poético sobre a história de Sísifo, seu destino não é nada animador. Por ironizar os deuses, foi condenado a rolar diariamente uma pedra montanha acima, até o topo. Ao chegar ao topo, o peso e o cansaço fariam a pedra rolar novamente até o chão e no outro dia ele deveria começar tudo novamente e assim para todo o sempre. 

É na terceira faixa, do terceiro álbum solo do músico compositor gaúcho Pedro Pastoriz (Mustache e os Apaches), “Sessão das Sete”, que o encontro com Sísifo acontece. No meio de uma balada surreal contemporânea na qual um homem e uma mulher, atrasados para a sessão de cinema, sobem justamente uma ladeira, enquanto o filho do vento vem no sentido oposto. Nas duas primeiras faixas a vontade é de dançar e, na terceira, ainda dançando, descobre-se a que veio o álbum que ganhou o título: “Pingue-Pongue com o Abismo”, uma referência do poeta beat Allen Ginsberg a uma de suas inspirações, o escritor Carl Solomon, tema da terceira parte de sua obra mais importante, “Uivo”, a quem ele dedicou todo o poema. Seu trabalho foi reunido pela primeira vez no meio dos anos 60 em dois livros, “Mishaps, Perhaps” (1966) e “More Mishaps” (1968), que formaram a base de seu único livro publicado no Brasil, “De Repente Acidentes” (lançado em 1989). Ginsberg citava-o nominalmente na terceira parte de “Uivo” (“I’m with you in Rockland / where you scream in a straight jacket that you’re losing the game of the actual ping pong of the abyss”, “Estou contigo em Rockland / Onde você grita numa camisa-de-força que está perdendo o jogo do verdadeiro pingue-pongue com o abismo”).

Como uma espécie de Sísifo contemporâneo, desdobrado, e surgido de um destino transformado, cujo movimento gerador das canções pode tanto ser pedra acima, quanto cascalho abaixo, em qualquer via dele partida, esse álbum dá voltas em si. O primeiro impulso é dançar, depois chorar, filosofar, romantizar, ironizar, problematizar até voltar a dançar e assim sucessivamente. É possível sentir-se forte e esperançoso subindo ladeira com pedra, tanto quanto frágil e exposto, apenas vendo o rochedo que desce ladeira abaixo, sem alternativa possível para a execução de uma nova rota.

Sem economizar na ironia estruturada sobre informações engajadas, como em “Boogaloo”, referência ao movimento de extrema direita americano, o artista brinca por e sobre territórios sérios, quase que usando a imaginação como alternativa a algum desespero. E no final há um solo de liquidificador.

De todo modo, uma expressão chama a atenção nas ladeiras acima ou abaixo, com ou sem pedra do álbum: replay, presente em cinco das 14 faixas do disco. Ao mesmo tempo, o trabalho tem tantas referências de texto e tanta plasticidade movimentada em formas que excedem conceitos e surpreendem ouvidos treinados em rimas óbvias, acordes e temas corriqueiros nas produções da música jovem brasileira, que o replaydesaparece como expressão para dar lugar a inúmeras surpresas. Também paradoxal às pontas irônicas, estão referências como o texto de Freud “Recordar, Repetir, Elaborar”, usada por Pastoriz quando ao tentar dar conta da morte de sua mãe durante o processo de criação do álbum. Ele parte em busca de soluções para sua tristeza e parece descobrir que algumas dores nunca serão de todo sanadas. Ficarão, ao contrário da dor do filho do vento, mais leves e passíveis de se transformarem em memórias doces, em cores suaves, em sorrisos sorrateiros no meio do dia com uma voz ou cheiro que sobressai de repente ao nada, e volta como um replay temporário, porém já acomodado no coração de quem segue a vida. E assim surge a bela canção com o nome de “Alzira Ruth”. Quando uma mãe morre, terminam as palavras, começam as travessias e os sopros do vento nas ladeiras que, de tempos em tempos, são subidas e descidas por toda a humanidade, desde antes de Sísifo. 

Feito à Mão é uma parceria da Musicoteca com o Programa Na Ponta da Agulha.
Escrito por Janaina Fellini e Cristiano Castilho.

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