Surya: Amor, L’amour, Love (Volume I)

Amar é uma proibição de estar só. Valter Hugo Mãe, o escritor angolano-português, é uma boa fonte para assuntos do coração nestes tempos em que ele mais apanha do que bate. Para amar, precisa-se de sorte. E depois, de empenho. O amor também é namorar com cuidado. 

Desde o encontro da palavra com a música, o sentimento inextricável ganhou projeções possíveis. E com as canções, vieram listas, hinos, velas acesas no bis romântico – sempre deixado para o fim das coisas – e também um lugar na memória do amar, incorruptível, mas sujeita à formatação. 

A cantora e compositora curitibana Surya tem 23 anos. E talvez por isso, motivada por uma ingenuidade calculada e ainda bem-vinda, correu o risco de falar sobre amor no disco “Amor, L’amour, Love (Volume I)” – o volume II é totalmente em inglês. Talvez a língua ainda seja um limite natural e na verdade não importe tanto, mas o que está em jogo é a coragem em se falar sobre o que se sugere deliberadamente ignorar.

Com nove faixas em português, inglês e vestígios de francês, Surya desdobra essa “coisa esquisita” como num leque: o amor de mãe, o amor da amizade, o amor que suplanta a paixão, o amor “ao menino dos olhos grandes”, o amor à vida. A MPB revolvida, o samba, os toques de jazz, principalmente com os metais de JP Branco (trompete) e Hudson Correia (saxofone), contrastam com a complacência da voz da artista, que se por um lado demonstra certa crueza amadora, por outro é honesta quanto aos seus próprios limites. 

Um dos destaques é “Do Brasileiro A Saudade” – seria a saudade um amor retroativo? -, música grandiosa, principalmente em seus arranjos precisos. E aqui vale um salve ao violão de Gabriel Carvalho, ao cavaquinho de Alisson Narciza, e ao violão 7 cordas de Rafael Guimarães. O piano percussivo de Marco Antônio conduz “Goodbye”, faixa circular e entorpecente que lembra: para amar de novo, é preciso esquecer. 

Em “Renúncia” e na derradeira “Agradecimentos”, Surya declama e interage diretamente a quem chegou ao fim do percurso sugerido. Pois mesmo num ambiente controlado, como num disco, o amor escapa.

Ah, e cabe lembrar: Surya é uma das atrizes do filme “Alice Júnior”, do diretor paranaense Gil Baroni. O longa-metragem poderia ser mais uma comédia romântica adolescente, mas nele há algo a mais, e a crítica vem percebendo isso: “Alice Júnior” passou pelos Festivais de Berlim, de Brasília, do Rio, pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e pelo Mix Brasil. E carregou troféus em todos eles. O filme é um abraço na diversidade. Nas várias formas de amar.

Feito à Mão é uma parceria da Musicoteca com o Programa Na Ponta da Agulha.
Escrito por Janaina Fellini e Cristiano Castilho.

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